“O Sonho de Cassandra” é Woody Allen refinado. (Post vintage/2008)

No criado mudo do personagem de Colin Farrel, um dos dois irmãos protagonistas do novo petardo de Woody Allen, ao invés de uma foto dele com a mulher, ou de uma foto dos pais, ou mesmo uma foto do irmão, tem um porta retratos com uma reprodução do Adão do Michelangelo, aquele com o dedo estendido tentado alcançar o dedo de Deus. Isso meio que resume todo o “O Sonho de Cassandra”, uma família perdida, todo mundo achando que pode encontrar a salvação no suposto tio milionário, mas que no final das contas é onde encontram o que será o maior dos seus problemas.
A maturidade de Woody Allen, se é que ela chegou mesmo, vem na forma de filmes bem acabados, perfeitos, com os melhores elencos e os melhores roteiros, só que a diferença, além da geográfica, que no final das contas não faz tanta diferença assim, mas a tal da maturidade se mostra em filmes engraçados e dramáticos, divertidos e tensos, tudo ao mesmo tempo.
Antes íamos assistir à nova comédia de Allen, ou íamos ver o novo drama de Allen, hoje em dia vamos ver o novo filme de Allen, vamos rir e sofrer, o que é o melhor de tudo.
Nesse caso, de “O Sonho de Cassandra”, nos divertimos com os irmãos Farrel e Ewan McGregor, ingleses de classe média tentando ganhar dinheiro de todas as formas possíveis, em jogo de carta, corrida de cachorro, ou investindo em hotéis na Califórnia. Seus esquemas às vezes dão certo e eles comemoram e na maioria das vezes dá errado e eles sofrem sem dinheiro. Mas seu tio milionário, o grande Tom Wilkinson, o cara da família que deu certo como cirurgião plástico em Hollywood, que tem dinheiro e que sempre que a família precisa, pede uma ajuda a ele. Só que desta vez, quando pedem mais uma vez dinheiro emprestado, o tio pede um favor em troca. Um pequeno favor, considerando tudo o que ele já fez pra família. O tio estava com problemas e iria preso porque um de seus funcionários iria denunciar suas falcatruas à polícia e claro que “eu enriqueci com falcatruas, não tem outra forma”. Então o tio pede para que seus sobrinhos matem o tal funcionário para evitar a cadeia e assim ele continuaria os ajudando com muito dinheiro.
Esquemas, falcatruas, enganações, jogatina, tudo bem. Matar alguém? Será? Consciência? Essa é a questão que vem lá dos primórdios, comer a maçã ou não, matar o irmão ou não?
Com a sutileza do diretor, as questões morais e filosóficas do filme são jogadas com tanto bom humor e tanta delicadeza que o final surpreendente deixa todo mundo sem fôlego por vários minutos depois que as luzes da sala do cinema se acendem.

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