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2/365 Docinho da América

Sim o título é bom.

Provavelmente o melhor filme de 2016, escrito e dirigido pela inglesa gênia Andrea Arnold sobre uma população de molecada pobre americana tem esse título fofo (em inglês, American Honey).

O docinho em questão é Star (a principiante e já grande atriz Sasha Lane), uma adolescente que cuida de duas crianças que não são seus filhos e seduzida por um grupo de outros adolescentes que parecem viver bem ao som de We Found Love do Calvin Harris, larga tudo e entra numa van com seu novo sonho, que ela nem sabe qual é ainda, mas que talvez esteja na letra da música farofa, “find love in a hopeless place”.

Andrea coloca a câmera na cara dessa molecada, alguns poucos atores e outros que agora são atores e corta a América miserável com essa turma de vendedores de revistas numa época que ninguém mais lê revistas.

A possibilidade deles criarem histórias a cada casa que visitam sobre o porquê de precisarem vender as tais revistas é um trunfo pessoal mas não para Star: ela acha que mentir pra essas pessoas é ruim e que ou ela conta sobre ela mesma ou não fala nada.

Docinho da America é um road movie mas diferente do road movie normal que geralmente é um filme de auto conhecimento e de crescimento, neste os personagens só vão confirmando o que já sabem sobre si mesmo a cada cidade que passam: que eles fazem parte da América miserável sem perspectiva, desacreditada mas que mesmo assim eles, tentam à sua maneira, que isso não os impeça de serem felizes.

A turma é comandada por Krystal (a ótima Riley Keough, neta de Elvis Presley), em princípio a inescrupulosa que criou esse negócio e que fica com grande parte do que os adolescentes vendem. Uma cafetina travestida de mulher de negócios num mundo onde ela não é de forma alguma questionada: não gostou, cai fora, afinal eu te dou transporte, hotel pra dormir, comida, banheiro, o que você precisa é vender assinatura de revistas num mundo que ninguém mais lê. Fácil.

Krystal tem um braço direito Jack (Shia LaBeouf, nunca antes tão feio e nunca antes trabalhando tão bem), ou como os outros o chamam, sua putinha particular. Jack é mais velho, mais experiente, encarregado de achar novos adolescentes pra entrarem na turma de vendedores e também encarregado de realizar todas as necessidades de Krystal.

Mas Jack e Star se envolvem num romance proibido e escondido muito por carência e bastante também por uma criação de ligação para que ambos achem forças durante sua jornada.

O filme acompanha a turma toda cortando as estradas americanas em uma van, cantando, fumando, brincando, dando risada, de novo, sempre com a câmera na cara de todo mundo, em partes que mais parece ser um documentário sobre esse povo todo do que um filme com roteiro ensaiado. Nesses momentos enxergamos uns detalhes lindos, umas piscadas de olho, uns carinhos fortuitos, uma discussão sobre qual música ouvir e entendemos de verdade quem são esses atores e essas atrizes.

E o melhor: a genialidade de uma diretora como Andrea Arnold se mostra nesses detalhes e também em closes de insetos, de céu, de chão e em cenas onde vemos que sim existe um roteiro e a grande diretora de atores está lá presente.

Andrea faz o que quer e o que não quer em Docinho da América. Cria climas que me deixaram numa tensão absurda esperando sempre o pior que fosse acontecer ao final da sequência e finalmente depois de minutos conseguir respirar de novo.

Uma maquiagem borrada, um vestido mais curto, um close do pinto de um dos caras, uma briga com o beijo do vencedor ao final, uma caída de roupa na piscina é o que fazem Docinho da América. Não adianta você ver de loge, como vemos todos os dias nos jornais de tv. O que Andrea faz é nos colocar dentro das vidas desses moleques sem futuro mas com um presente que eles querem viver ao máximo, tanto que as 2 vezes que perguntam para Star e para Jack “qual o sonho da sua vida” os 2 respondem a mesma coisa: “eu nunca pensei nisso”.

Ah, o filme tá no NETFLIX. Cola lá.

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