62/365 SILÊNCIO

 

Silêncio é a prova que Martin Scorcese pode fazer qualquer filme.

Tá, a gente já sabia disso, o cara é rei, o cara é mestre, o cara é amo e senhor.

O cara faz comédia, faz drama, faz thriller, faz terror e faz (quase) tudo bem, porque a gente não consegue esquecer A Época da Inocência, entalado em nossas gargantas até hoje.

Mas falemos de coisa boa: Silêncio.

Seu mais recente filme conta a história dos padres católicos que vão para o Japão feudal tentar catequisar o país budista.

Nos idos dos anos 1600, os jesuítas portugueses se espalhavam pelo mundo levando a palavra do Deus católico para os povos “bárbaros”, como eles mesmos diziam.

Em lugares como o Brasil, eles tiveram “sucesso”, como nós bem sabemos. Em outros, como no Japão, a história foi bem diferente.

O filme começa mostrando como o famoso jesuíta Padre Ferreira (Liam Neeson) foi humilhado, torturado, subjugado, até que renunciou sua fé e sumiu.

Só que a cúria jesuíta portuguesa não desistiu dele e mandou outros 2 padres (Andrew Garfield e Adam Driver) para tentar achar seu paradeiro.

A grande história do filme é o périplo dos 2 novos jesuítas numa terra hostil, no meio do nada, procurando quem seguia o catolicismo numa terra budista que tinha proibido e banido a palavra de Cristo.

Fora de seu habitat natural, as ruas de NY, Scorcese encontra, no meio do nada no Japão feudal, o lugar ideal pra mostrar o quanto o seu catolicismo é grande e importante.

O filme é lento, plácido, calmo e quieto, mostrando os 2 jesuítas calados e escondidos sob o solo de uma cabana no meio da floresta para não serem encontrados pelos senhores feudais que caçam os católicos e os fazem de novo negar o Cristo ou serem mortos de forma linda e bizarra e cruel.

As cores do filme são maravilhosas, começando numa luz sóbria até e escurecendo à medida que os padres vão sofrendo, um dos detalhezinhos de um filme lindo.

Scorcese diz que soube do livro que deu origem ao filme quando estava no Japão filmando, como produtor, a última obra prima de Kurosawa, Sonhos, 28 anos atrás. E desde então vem tentando fazer esse filme, contar essa história.

Eu acho que o filme tem 2 problemas.

O primeiro é a duração. Acho que hoje em dia um filme com quase 3 horas de duração não se justifica. Nem sendo do mestre dos mestres. Nem tendo que contar a história de padres que são vencidos pelo cansaço. Só que o nosso cansaço.

O segundo problema é o elenco. Garfield é um ator que pra mim não significa nada. Com tanta gente absurdamente talentosa, esse cara e seu pescoço e suas mesmas caras de sempre, de sofredor de testa enrugada. Por favor.

Apesar dos pesares, o filme é lindo, filmado como poucos filmam, com planos tão lindos que devem ter sido tão bem estudados que parecem pinturas a óleo que demoraram meses sendo detalhadas.

O próximo filme de Scorcese, The Irishman, volta às ruas de NY com seu preferido Robert De Niro mais Al Pacino e Joe Pesci, para contar a história do assassinato do sindicalista Jimmy Hoffa.

Espero que essa viagem ao passado japonês deixe rastros nessa história tão recorrente do diretor.

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