Às vezes no cinema as metáforas não são tão metáforas assim. De vez em quando os diretores e roteiristas nos jogam na cara o que eles querem nos contar, sem rodeios, sem floreios.
Bullhead é um filme belga maravilhoso que conta a história de um menino brutalmente atacado por outro com problemas mentais, perde o saco, os 2 testículos, sua hombridade. A partir de então ele precisa tomar muito hormônio, muita testosterona para compensar a falta que “suas bolas” vão fazer.
20 anos depois ele virou um touro, literalmente. Um cara enorme, forte, violento, atormentado, que trabalha com carne, mora na Bélgica, na fronteira com a França, fala flamengo, a língua bizarra belga que ninguém entende e também fala francês.
Cuida de seu irmão, lida com mafiosos, com corruptos que lhe vendem hormônios para ele mesmo e para o gado que ele tem com sua família, hormônios esses que o fazem sentir mais homem, o homem completo que sabe que nunca vai ser. Só que da mesma forma que seu gado toma hormônios para engordar, crescer, ele também toma para ser mais homem, ganhar a masculinidade perdida com a perda das bolas, o símbolo do macho. E com esses hormônios ele acaba virando o grande touro temido por todos.
O trauma de infância não sai de sua cabeça; o deficiente que acabou com suas bolas batendo com 2 pedras saiu ileso do caso; seu melhor amigo não pôde testemunhar a seu favor porque seu pai tinha medo de represálias pelo pai do doente.
A vida não é fácil. As coisas são óbvias e claras e muitas vezes os pequenos detalhes acabam desviando a atenção da vida mesmo, fazendo com que ela saia do curso e dê uma guinada radical de 180 graus pra onde não sabemos onde vamos parar.
Puta filme, puta reflexão e de novo, sem rodeios, sem jogos de linguagem, tudo na cara como tem que ser de vez em quando, nessa lindeza de filme orquestrado pelo fodão belga Michael Roskam. E tô na torcida pelo filme novo dele, Racer and the Jailbird, estreie logo em Cannes por esses dias.
E pra ilustrar tudo isso, O cara, Matthias Schoenaerts, a maior promessa do cinema europeu na minha opinião, o ator que logo vira imprescindível por aí.
E pra terminar com o fim: o filme tem uma das melhores sequências finais dos últimos anos.
Imperdível.

