Terence Davies é um dos grandes diretores que eu considero dos mais transgressores em atividade.
Em tempos de correrias, sexo, drogas, rocknroll, cenas criadas depois da música tema escolhida, rapidez, sangue e tudo mais que vemos no nosso dia a dia fílmico, o inglês é o cara que tem a coragem e a bravura de fazer um filme sobre a vida da poeta Emily Dickinson, que viveu na metade dos anos 1800’s, como se o filme tivesse sido filmado naquela época.
Além Das Palavras é quase difícil, é um filme que em princípio eu achei que seria maçante. Mas entrar no universo de Dickinson, naqueles dias onde tudo era calmo e tranquilo e lento, foi ma das coisas mais lindas desse ano, aprender a ser respeitoso com o tempo e com as pessoas, como eles foram, aprender a respirar e pensar e ter um tempo diferente do nosso tempo hoje em dia é uma aula, ou uma lição que eu levei e aceitei com prazer.
Emily foi uma mulher que escrevia desde sempre, numa época que as mulheres não eram nem levadas em consideração como cantoras e quando o faziam eram muito criticadas.
Ela escrevia todo dia e o filme mostra o quanto seus poemas tinham a ver com sua vida em família, a vida que ela escolheu quando dizia que não saberia viver com um homem e com estranhos ao invés de viver com quem amava de verdade.
Davies encontrou em Cynthia Nixon a atriz perfeita para encarnar a sua Emily. E com sua mão forte e poderosa de diretor, fez com que eu me esquecesse absolutamente que aquela era uma atriz fazendo o papel de uma escritora que viveu 200 anos atrás.
Eu nem consigo imaginar como o inglês chegou à conclusão de que Cynthia seria a melhor opção para esse papel. Fico pensando que sua explicação seria uma magna aula.
O filme, como disse, é lento, sem maneirismos, sem movimentos de câmera espetaculares.
Ao contrário, Além das Palavras é contemplativo, com a fotografia mais linda possível para uma época onde se vivia a luz de velas e lampiões, onde o silêncio era a educação, onde ouvir era primordial.
Nem por isso Emily não se fazia falar e ser ouvida, suas frases espirituosas e muitas vezes de um humor ferino eram muito levadas em consideração.
No filme vemos o quanto ela sofreu por não ter sido reconhecida em vida como a grade poeta que foi (e é até hoje), o quanto ela gostaria que seus parcos poemas publicados anonimamente no jornal de sua cidade ganhassem o mundo e que todos pudessem ler e aprender o que ela tinha a dizer.
Além das Palavras é uma experiência fílmica, é daqueles espetáculos para se jogar de cabeça, de braços, coração e peito abertos de onde, eu garanto, não saímos como entramos.
Um dos grandes do ano.

