O que mais me impressionou em Bingo – O Rei das Manhãs é ver que o filme é um dos poucos brasileiros sem ter uma “obrigação”. E incrível ser essa a crítica de alguns figurões do jornalismo brasileiro em relação ao filme.

No cinema brasileiro, meio que por uma síndrome de vira latas ou por causa de culpa por gastar dinheiro com cultura e não construir hospitais, parece que todo filme precisa ter uma função social, por menor que seja.
Bingo não tem.
É um filme que não tem porquê.
E isso é bom.
Bingo é um belo filme sobre a história de um ator de pornochanchada, malucão, cheirador de cocaína que acaba virando um apresentador de programa de televisão infantil nos anos 1980’s, contra tudo e contra todos.
Só que ele vira apresentador travestido de palhaço, o palhaço mais famoso de então, que além dele, foi vivido por outros atores e como ninguém sabia quem era quem por trás da maquiagem pesada, a fama de cheirador doidão era dispersa.
O cara fazia sucesso, ganhava dinheiro, pirava cada vez mais e ainda sofria porque, apesar de famoso, ninguém sabia quem ele era. E ninguém podia saber.
Os loucos e inconsequentes anos 1980’s foram o palco ideal para que essa história bizarra acontecesse. Numa época onde o politicamente correto não existia, ele fazer piada com porre, drogas e sexo num programa infantil no SBT são coisas impensáveis nos dias de hoje.
Duvida? Procure mais vídeos pelo youtube.
Bingo, o filme é ótimo.
Bem escrito, bem dirigido e com um elenco afinadíssimo onde Vladimir Brichta se destaca no papel principal.
O meu choque é saber que um filme, que não tem nada de genial, é um filme bem feito na mais óbvia fórmula cinematográfica, com apresentação, ascensão e queda do herói, causa tanto auê. Essa deveria ser a fórmula usada em tudo quanto é filme brasileiro meia boca que não serve pra nada, deveria ser o padrão.
Triste o cinema no Brasil, mas um dia a gente chega lá.
O filme é o brasileiro escolhido para tentar uma indicação ao Oscar de filme em língua estrangeira e, claro, minha torcida vai pra ele.

