Que filme, meu povo, que filme.
Já vinha ouvindo grandes elogios sobre Mudbound, mas nenhum chegou aos pés do filme.
Mudbound literalmente me deixou chocado, de boca aberta, em mais de um momento. Acho que foi o único filme do ano que provocou isso em mim.
O filme se passa nos últimos dias da II Guerra Mundial no Mississipi.
Uma família vinda de Memphis compra uma fazenda no Mississipi durante a II Guerra Mundial.
Nessa fazenda vivem algumas famílias que por lá trabalham mas com destaque para a família Jackson, uma família de negros liderada pelo pai Hap e pela mãe Florence vivida lindamente pela estrela da música americana Mary J. Blige. Seu filho mais velho, Ronsel está na Europa num batalhão conhecido como Panteras Negras onde só negros comandam tanques na ofensiva americana.
Os donos da fazenda, o casal vivido por Carey Mulligan e Jason Clarke. Seu irmão mais novo Jamie também está na Europa como piloto de aviões, enquanto eles tentam fazer a fazenda com plantação de algodão funcionar, sendo gente da cidade que se aventura no campo e para piorar o pai dos homens, um racista membro da KKK assombra a casa deles.
Aos poucos os brancos vão comandando o que acontece na fazenda e a família negra que aluga o sítio e paga com trabalho, sempre deixando claro que não é empregada dos brancos, vai tentando sobreviver com o quase nada que eles produzem.
Uma das coisas lindas do filme é o quanto o foco está nas mães das famílias, de como elas são fortes e opinativas apesar de viverem no meio do patriarcado mais canhestro possível.
Até que o foco muda, a guerra acaba e os filhos voltam às suas casas.
Os filhos, aliás, são as estrelas do filme.
Jason Mitchel, o filho pobre Ronsel rouba o filme inteiro, de cabo a rabo. Que ator, minha gente. Ele já tinha roubado a cena como Eazy-E em Straight Outta Compton – A História do NWA e acho que vira super estrela daqui pra frente.
O outro cara que quebra tudo no filme é Garreth Hedlund, um cara que eu achava muito ruim em tudo o que eu já tinha visto com ele mas que mostra que bem dirigido até um ator mediano fica bem no papelo certo.
E para desespero de todos não só na fazenda, mas também na cidade, os ex-combatentes começam a andar juntos e criam laços fortes de amizade.
Nos EUA dos anos 1940’s com a klu klux klan forte como era, um negro ser amigo de um branco era inaceitável e o terror é iminente.
A grande coisa de Mudbound é a coragem da diretora Dee Rees contar essa história de forma tão contundente e tão “na cara” da gente que vê o filme.
Não existe condescendência, não existe sutileza, o filme mostra o que tem que ser mostrado, do jeito que tem que ser mostrado.
A violência é uma aura que paira no filme inteiro.
A tensão é tão aparente que você passa o filme inteiro esperando alguma coisa acontecer.
Só que quando alguma coisa acontece, você não acredita no que está vendo.
Mudbound com certeza será indicado ao Oscar de roteiro adaptado, porque é uma aula de escrever cinema.
Não tem uma cena a mais ou a menos.
As 2 horas de filme são absolutamente necessárias e bem feitas e lindas demais.
E se houver justiça nesse mundo, a diretora Dee Rees vai ser indicada e premiada por essa lindeza.
Nasce um clássico.
