Site icon Já Viu?

19/365 A CIAMBRA

Eu amo um filme que me faz sentir como se eu tivesse levado um soco no estômago, ou um tapa de mão aberta no rosto.

A Ciambra é um desses e, olha, que porrada.

A Ciambra é o candidato italiano a Oscar de Filme de Língua Estrangeira, um dos que não ficaram na lista final dos 9 possíveis indicados.

Como o meu preferido do ano passado, o francês 120 Batimentos Por Minuto, também deveria estar lá.

A Ciambra é um bairro de Roma onde moram os ciganos. Na verdade não sei se dá pra chamar de bairro, mas sim meio que um buraco em alguma periferia da Calábria.

Eu sou fã de Suburra, primeiro do filme de 2010 e depois da série da Netflix. E lá dá pra entendermos o quanto os ciganos são muitos e são poderosos no underground calabrês.

E não tô falando em underground cool de noite e festa e malucões, tô falando em underground de drogas e armas e muito dinheiro que vai e vem e mortes e daí pra baixo.

Na Ciambra mora Pio e sua família.

Pio tem 14 anos mas fuma e bebe desde os 6, é um tosquinho, rouba tudo o que pode pra fazer uma grana, de bicicleta a cabos de bronze, faz gato pra não pagar eletricidade em casa e, porque seu pai e seu irmão acabaram presos, faz de tudo para provar que já é um homem e pode substituí-los no comando da casa.

Só que Pio e sua família não fazem parte das famílias de ciganos poderosos, como as da Suburra.

Eles são miseráveis vivendo nessas condições absurdas, ou melhor, sobrevivendo.

E o mais foda de tudo: Pio e sua família não são personagens, são pessoas reais.

O diretor Jonas Carpignano teve a brilhante ideia de conceber seu filme a partir de histórias da vida real desse puta personagem que é Pio.

O filme me deixou embasbacado sem ter essa informação. Se eu soubesse que aquele povo todo vive aquele jeito e que muito provavelmente aquelas histórias ou já aconteceram ou vão acontecer de alguma forma, eu teria ficado mais arrasado ainda.

A Ciambra é uma aula de como se deve fazer cinema daqui uns 10 anos.

É um filme que quebra padrões e barreiras.

Não por contar histórias ficcionais de personagens reais mas por contar essas histórias como foram contadas, com personagens que no mínimo sabem muito o bem o que é tudo aquilo e por contá-las como Carpignano as contou.

Em Suburra vemos como os imigrantes estão tomando conta da Itália, para horror dos conservadores.

A Ciambra mostra que já é, os caras chegaram para ficar.

Não tem um único italiano no filme e se tem, ele deve estar lá ao fundo numa figuração de 10 reais a diária.

Em A Ciambra ou você é cigano ou vc é africano e isso diz muito sobre o que acontece hoje na Europa e nem só na Itália.

Ah, detalhe, alguns personagens desse Ciambra vieram diretamente do filme anterior do diretor, Mediterranea, que é outro soco na cara.

Não perca por nada.

Ah, e só um detalhe, mais um acerto na mosca do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira.

NOTA 🎬🎬🎬🎬 1/2

(opção para assistir o filme)

Exit mobile version