39/365 TRAMA FANTASMA

Paul Thomas Anderson é na minha estúpida opinião, o grande diretor de cinema em atividade.

O diretor de Magnolia, um dos top 5 da minha vida, só faz filme pelo menos maravilhoso.

E à medida que o tempo passa, sua “carpintaria fílmica e cinematográfica”, seu dom como diretor, sua percepção, tudo vai melhorando e melhorando, como sim esperamos, mas de uma forma que vai além de qualquer expectativa.

Em Trama Fantasma, seu mais recente filme, mais um desses dons vem à tona: PTA não tem mais um diretor de fotografia, ele usa uma bela equipe de iluminação com quem cria a luz do filme e passa a operar a câmera.

O que eu achei que seria só uma excentricidade, neste filme se mostrou o mais belo dos artifícios, onde a câmera de PTA muitas vezes se insere às cenas dando uma vida inesperada em um filme onde, em princípio, não caberiam malabarismos estilísticos.

Mas sim, couberam, funcionaram e em cada um deles meu queixo foi caindo, meu sorriso foi aumentado pelo prazer de testemunhar esses detalhes geniais.

Sabe um daqueles diretores que te chocam com o que fazem e você fica pensando “caralho, queria ter vivido quando ele estava vivo pra entender o porquê disso acontecer”, tipo o Carl Dryer?

É isso que eu sinto com Paul Thomas Anderson, só que daí a felicidade é boa porque sim, estou vivo na mesma época que ele, de uma forma ou de outra respirando o mesmo ar.

Trama Fantasma conta a história de um brilhante estilista inglês na Londres do Pós-Guerra, onde rainhas e princesas e milionárias e estrelas de cinema iam aos borbotões ao seu ateliê por suas criações, na verdade para terem o privilégio de usarem as suas criações e não como é hoje onde estilistas pagam atrizes medíocres para usarem seus modelos em tapetes vermelhos.

Quando o mundo era de cabeça pra baixo, sabe?

Bom, esse estilista é vivido de uma maneira tão exuberantemente tímida por Daniel Day-Lewis que, desculpe-me Timothée Chalamet, mas o Oscar tem que ir para as suas mãos.

(Fora que ele, Lewis, já declarou que esse papel é sua aposentadoria das telonas)

Ele é Reynolds Woodcock, que vive em uma bela casa onde funciona também seu ateliê e com sua irmã (claro), que cuida dos negócios (claro 2) e coloca o gênio dos vestidos em seu lugar quando precisa, revoluciona a forma como as mulheres são vistas a partir de seus vestidos.

Ele se inspira nessas mulheres que por ele transitam e por causa delas suas criações são o sucesso que são.

Até que um dia ele conhece uma garçonete desajeitada, Alma, o oposto de mulher com quem ele está acostumado a se relacionar, e na hora se interessa por ela e dela não se separa nunca mais.

Ela não só vira na hora sua musa como aos poucos vai se tornando sua obsessão.

Alma é Vicky Krieps, uma atriz pra mim não conhecida, mas que sim, já a tinha visto em Hannah e como a mulher de Karl Marx em O Jovem Karl Marx.

E Vicky Krieps é a prova de que um puta diretor transforma uma atriz razoável (pelo que tinha visto dela antes) em uma estrela.

Que mulher!

Woodcock (que poderia ser traduzido toscamente por pau bem duro, pau de madeira, se eu fosse tosco e óbvio) a leva para Londres, para seu ateliê, para sua casa e faz com que todas a sua volta a aceitem.

Sim, todas, porque o único homem no filme com qualquer importância é o próprio Woodcock, de resto, só mulheres.

Aos poucos, a genialidade e a excentricidade desse gênio vão batendo de frente à simplicidade e a espontaneidade de Alma e o que seria apenas o barulho dela passando manteiga em uma torrada se torna insuportável para alguém tão sensível.

E chato, posso dizer também, porque excentricidade é um sinônimo que aprendemos a utilizar para alguém que ninguém aguenta muito, mas sim suporta.

Mas o amor, ah o amor, tem razões que a própria razão desconhece.

E a história de amor de Woodcock (o pau duro) com Alma (a delicadeza, a fluidez) não poderia funcionar melhor.

Agora, preste atenção nesse tipo de detalhe do filme: o cara, Woodcock, o fodão, o pau duro, é o gênio, o excêntrico, o maestro, o delicado, o que faz vestidos, o que costura, o que borda.

E Alma, a fluida, a branquinha quase transparente, delicada, é a tosca, a estabanada, a sexual, a doidinha que quer sair para dançar e ri e faz barulhos.

Detalhes como esse fazem toda a diferença em um dos grandes roteiros do ano.

Além de toda a maestria de PTA por trás das câmeras, um dos grandes pontos do filme é a trilha sonora do Radiohead Johnny Greenwood.

O filme não tem momentos de silêncio.

A trilha é presente 99,9% do tempo e ela é uma parte bem forte da narrativa de Trama Fantasma.

Em verdade, até comparo à Dunkirk, na importância da trilha como sujeito narrativo.

Que trilha, que delicadeza e que precisão.

Trama Fantasma é o tipo de filme que eu não fazia ideia para onde iria me levar e que sorte a minha, me levou para a melhor das viagens e que, como todos os outros do MESTRE Paul Thomas Anderson, já tem um lugar especial na minha vida.

NOTA 🎬🎬🎬🎬🎬

(opção para assistir o filme)

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