You Were Never Really Here foi o último filme a ser apresentado em competição no Festival de Cannes de 2017.
Uma das regras do festival é de dar apenas 1 prêmio por filme.
Sempre.
Só que por You Were Never Really Here, a porrada na cara da escocesa tão amada Lynne Ramsay, a regra foi quebrada.
O filme ganhou o prêmio de melhor roteiro e Joaquin Phoenix levou o prêmio de melhor ator.
E digo uma coisa: poderiam ter continuado com os prêmios porque o filme é top 5 do ano.

Joe é o personagem vivido por Phoenix, um assassino de aluguel diferente dos outros, por alguns motivos.
Primeiro, ele só aceita um tipo de serviço, salvar meninas menores de idade vítimas de exploração sexual, prostituição e por aí vai.
Segundo, sua arma é nada mais nada menos que um martelo. Ou uma marreta. Ou poderia dizer que algo nessa família, algo pesado para, obviamente, acabar com a raça do tipo de gente que comete esse tipo de crime.
Ladrão que rouba ladrão…
Mas Joe tem seu lado família.
Quando não está arrebentando o crânio de pedófilos, ele mora com sua mãe, uma idosa engraçada, divertida, que adora pregar peças no filho.
E Joe é quietão, tranquilo, reservado.
Aos poucos a diretor Ramsay vai nos dando dicas da vida que Joe levou e o que o levou a ter essa vida.
Ele foi um oficial do exército em alguma guerra atual, ou Iraque, ou Afeganistão.
Ele depois trabalhou para o FBI.
E bem antes disso, em flashbacks perturbadores, vemos que Joe, além de sua mãe, foi abusado por seu pai.
Tudo isso transformaram Joe em um cara forte, grande, impiedoso e ao mesmo tempo tão cuidadoso com as meninas que salva.
Um dia Joe é contratado por um Senador americano para que salve sua filha de 13 anos, raptada e mantida em cativeiro em um bordel de luxo em Manhattan, ligado ao governador de Nova York, vivido por Alessandro Nivola que tem o melhor desfecho de personagem de sua carreira.

A sequência da chegada de Joe ao bordel, com o rastro de sangue que ele vai deixando pelo caminho até chegar no quarto onde a menina está seminua e dopada, é uma das coisas mais cruéis e violentas e lindas que você vai ver num filme esse ano.
A direção de arte, a fotografia e a trilha sonora são perfeitamente usadas por Ramsay para que ela conte sua história da forma mais dicotômica possível.
E o gênio dessa mulher, por ter escolhido um ator do calibre de Joaquin Phoenix para ser seu Joe, é o primeiro indicativo do que vemos por toda 1 hora e meia de filme.
Ramsay já disse em uma entrevista que Phoenix é sua alma gêmea e eu super acredito nela.
Phoenix me fez acreditar que ele matava aquelas pessoas, que ele sofria quando recuperava as meninas, que ele ria com a mãe, que ele chorou quando viu que ela estava morta e que ele é estranho o suficiente para ter segurado a mão do assassino que está esvaindo em sangue no chão da cozinha de sua casa, sofrendo com ele.
Tenho a teoria que muito pouco se fala em Joaquin Phoenix como grande nome do cinema americano, teoria essa que eu espero que seja provada o contrário a partir deste filme.
You Were Never Really Here é um filme curto, como deveria ser, porque se tivesse mais 10 minutos eu acho que morreria de falta de ar.
São 90 minutos frenéticos, com poucos momentos que nos deixam respirar fundo para continuarmos.
A trilha, do Radiohead Johnny Greenwood, é muito responsável por isso também, uma barulheira das melhores que não nos dá trégua, muito parecida filosoficamente com sua trilha para Phantom Thread, no sentido de os filmes não terem praticamente momentos de silêncio, apesar de parecer que sim.
You Were Never Really Here vem sendo comparado a Taxi Driver e numa leitura rasteira, eles poderiam até dividirem uma mesa de boteco, mas eu acho que o buraco é mais embaixo.
Lynne Ramsay, que para quem não se lembra é a diretora de Ratcathcer e de Precisamos Falar Sobre o Kevin, nos presenteia mais uma vez com um filme único, onde ela cria um universo sensorial e estético muito próprios e que, com certeza, serão bem copiados, ou usados como referência, daqui pra frente. Prova disso é a sequência, tão odiada em Cannes, onde Joe leva sua mãe morta para ser sepultada em um lago.
Já disseram e eu vou repetir: You Were Never Really Here é a experiência cinematográfica perfeita.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬


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