Sempre que eu vou ao cinema sozinho em sinto culpa. Meu psiquiatra disse que isso é a depressão. Mas eu sinto culpa por estar ali dentro de uma sala viajando, fazendo uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, enquanto, por exemplo, minha filha pode estar no mesmo momento sofrendo um acidente de carro, ou pode estar sendo assaltada.
Para minha sorte, esse medo, até hoje, não passou mesmo de depressão minha, nada nunca aconteceu enquanto eu me refugiava ou no cinema, ou fazendo algo só para mim em um momento de auto indulgência.
Neste filme, o pior acontece.
Enquanto uma mulher vai à sauna com sua melhor amiga, passar umas horas relaxando, uma bomba explode em frente o escritório de seu marido onde, além dele, também está o filho do casal, que ela deixou para poder relaxar.
E os dois morrem.
Mas nada é assim tão simples.
O filme se passa numa cidade do interior da Alemanha, onde grupos neo nazistas são bem ativos.
Ela é alemã e se casou com seu então namorado turco enquanto ele cumpria pena preso por tráfico de haxixe.
Já solto, anos depois, com um filho de 8 anos de idade, ele tem um escritório de assessoria a imigrantes turcos.
Mas os nazis alemães odeiam os turcos com toda força. Já li que eles chamam os imigrantes de “pato purific”, sabe aquele negócio de limpar vaso sanitário, que é curvado e parece um pescoço de pato? Eles chamam de pescoço de turco. Feio. Para caralho.
Katia, a esposa, é vivida excepcionalmente pela alemã fodona demais Diane Kruger, que inclusive foi premiada como melhor atriz em Cannes 2017 por esse filme. Diane é uma atriz que sempre está quase famosa, quase com sucesso, quase fazendo um puta filme e com Em Pedaços, chegou onde já deveria ter chegado.
Voltando à história, Katia vai deixar seu filho com o marido para ir à sauna e quando sai para pegar o carro, vê uma mulher largar uma bicicleta em um poste em frente o escritório e fala para ela colocar uma corrente, prender a bicicleta porque é perigoso. A mulher diz que vai ser rápida e vai embora, enquanto Katia também vai.
Na sauna, com sua amiga, relaxa, conversa, dá risada até que volta para buscar marido e filho e seu mundo desaba.
A partir de então, Katia, sua família, seus amigos, tentam sobreviver com uma sombra tão pesada de um acontecimento tão desgraçado sobre suas cabeças, até que, por causa de um retrato falado que ela faz da mulher da bicicleta, a polícia chega a um casal de neo nazis e os prende pela suspeita do assassinato.
Mas o julgamento não acontece como esperado, Katia é desacreditada, sua sogra fala uns absurdos para ela, sua mãe fala uns absurdos para ela, sua amiga está grávida e ela acabou de perder o filho, nada é fácil e ela resolve que ao invés de se entregar, de se deixar abater, ela tem que fazer alguma coisa.
Por ela, por seu filho e por seu marido.
E por causa desse marido turco, porque ela fuma maconha, ela é considerada menos alemã, menos digna, menos confiante, como vemos no filme. E eu tenho certeza que seja assim por lá mesmo.
Katia é a mulher de 2018: forte, empoderada, faz como quer, o que quer, casa com quem quer, se diverte, assume seus atos e por isso mesmo é criticada a torto e a direito, aguenta muito, dos mais próximos e de quem não deveria duvidar dela. É o retrato da mulher de hoje em dia.
Fatih Akin é um diretor que se estivesse filmando como filma na indústria americana, estaria milionário, ganhando prêmios em festivais, no Oscar, em tudo quanto é lugar.
O cara sabe contar uma história, sabe colocar uma câmera na cara de sua personagem principal quando ela mais sofre para que a gente sofra junto.
Sabe dirigir o mais coadjuvante dos atores de seus filmes para que a gente acredite de verdade em tudo o que está sendo mostrado na tela.
Akin é turco-alemão, vive na Alemanha, faz seus filmes lá, todos muito bons, diga-se de passagem e é o cara mais subestimado do cinema europeu.
Sim, ele ganha prêmios, falam dele e de seus filmes, mas o cara é mais que isso tudo.
E Em Pedaços é o filme a ser visto e idolatrado.
Enquanto filmes como o que falei ontem, Os Fantasmas de Ismael são reverenciados e abrem o Festival de Cannes e um Desplechin tem todo o dinheiro que quer pra fazer um filme desses, Akin vai comendo pelas beiradas, com um puta roteiro muito bem dirigido e, melhor de tudo, com uma atriz excepcional que precisava de um diretor desses, de um roteiro desses para alcançar a glória que também merece.
NOTA 🎬🎬🎬🎬1/2

