A primeira regra para se fazer um documentário é encontrar um bom personagem, que pode ser uma pessoa, o vento em determinado lugar, um animal, um prédio, o que for.
Mas esse personagem tem que ser diferente de alguma forma, não o normalzinho que a gente não aguenta mais ver.
Em Dealt encontraram o personagem perfeito: Richard Turner.
Ele é um dos grandes mágicos americanos vivos e talvez o maior deles em truques com cartas, com baralho.
Ah, lá vem mais um filme sobre o novo Copperfield.
Não não, seus incautos.
Turner não só é o melhor deles como é cego desde os 8 anos de idade.
E a história dele é bem doida porque ele não se assume cego, nunca se assumiu.
Ou melhor, ele não usa sua cegueira como muleta (tum dum tss) para sua vida e sua carreira.
Sua história é lindona e triste.
A maneira como ele vai perdendo a visão ainda criança e como ele vai tentando se adaptar novamente ao mundo “normal” é bem interessante.
E como contam seus amigos de infância, ele sempre fez tudo o que quis, apesar de não enxergar: andava de moto, escalava, andava em corda bomba, malhava, era um galã, fortão, loiro, de olhos azuis e ao mesmo tempo descobriu a mágica e se dedicou a isso.
Ele diz que treina 16 horas por dia.
E quando as pessoas não acreditam, pegam ele sempre com um baralho nas mãos e não larga para nada.
Sua esposa conta que quando ainda namoravam, enquanto transavam pela primeira vez, ela ouviu um barulho estranho e quando olhou para a mão dele, ele embaralhava um baralho, mesmo sem parar o que fazia com ela.
O legal do filme, além de mostrar a genialidade do cara, embasada por declarações de outros mágicos tão famosos e grandes como ele mas também por especialistas que trabalham em cassinos, o legal é ver o quanto com o passar do tempo e com a chegada da necessidade em seu início da vida de idoso, a ideia que ele tem a respeito de sua própria cegueira vai mudando.
É incrível ver como sua irmã, também cega, lida com esse detalhe muito diferente do que ele lida.
Turner não deve ser o cara mais fácil do mundo, deve ser um super cabeça dura, genioso, mas provavelmente isso foi o que o fez chegar onde chegou.
Só que ele é o tipo de cara que não separa muito a família do trabalho, ou melhor, pelo que vi no filme, ele trata seu filho e sua esposa como partes de um todos voltado à mágica e à sua própria vida e foda-se.
É interessante, por exemplo, quando o filho explica como ele criou um processo para a família malhar junta, na academia que ele tem em casa, todo baseado no número de cartas do baralho.
No final das contas, a história do mágico cego e saradão é uma dos bons documentários que vi esse ano.
NOTA 🎬🎬🎬1/2

