First Reformed já começou com uma bela de uma porrada na minha cara: o padre Toller (Ethan Hawke, no papel de sua vida) resolve escrever um diário, todos os dias, por um ano, só que sem mostrar a ninguém e ao final, queimar tudo.
Eu fico aqui, escrevendo essas coisas todos os dias do ano e, ao invés de queimar, fico postando pra quem quiser ver. Tomara que eu aprenda com essa obra de arte que é o filme.
Toller é o oposto do padre bacana e bonzinho e cheio de energia.
Ele foi capelão do exército, quando convenceu seu filho a se alistar. Antes de completar 6 meses de serviço ele foi morto em combate.
Isso acabou com a vida do cara que agora, depois de ser largado pela esposa, vive numa paróquia no meio do nada, reza missas pra literalmente meia dúzia de pessoas e o ponto alto do dia é quando faz visitas guiadas para turistas em sua igreja que, construído nos anos de 1700, já teve muito coisa acontecendo, inclusive serviu de lugar para esconder escravos fugidos.
Só que esse é o menor dos problemas de Toller.
Ele bebe o tempo todo, mija sangue e pra completar a fase, tem que lidar, ou melhor, ajudar um casal de ambientalistas radicais onde ela está grávida de 5 meses e ele não quer que seu filho nasça no mundo em que vivemos.
Toller passa a ser o conselheiro do ambientalista deprimido até que a tragédia, anunciada, entre em sua vida. Ou acabe com sua vida.
O cara marca um encontro com Toller no meio da floresta e quando o padre chega lá, ele explodiu a cabeça com uma 12.
Mais essa.
Agora ele não só tem que ajudar a viúva como pretende seguir o último pedido do morto e resolver uns probleminhas que ele deixou pra trás.
E é aí que Toller começa a tomar consciência de onde vive, de quem é dono de sua igreja, de onde trabalha e de como isso tudo está realmente acabando com o mundo.
E junto a todos os dilemas de vida que o padre já tinha, este acaba sendo a cereja do bolo.
First Reformed é um filme sobre a fé. Ou sobre a perda da fé. Ou sobre o reencontro da fé e da verdade, sobre como a vida nos surpreende o tempo todo e como lidamos com isso.
Mas First Reformed pode também ser um filme sobre o ódio, sobre a raiva, sobre feridas que não se curam e viram câncer, sobre não conseguir superar adversidades, sobre o que todo mundo está vivendo em 2018, sobre o quanto a merda toda já bateu no ventilador e sobre o quanto isso tudo tem acabado com as nossas vidas.
Daí uns percebem isso e se acabam e outros não percebem, ou não querem perceber e vivem em festa.
Padre Toller é um que não só percebe como não consegue esconder que percebeu e que sofre por isso.
Ethan Hawke, tenho certeza, é o melhor Padre Toller que o grande roteirista e diretor bissexto Paul Schrader poderia ter.
Pra quem não sabe, Schrader é o cara que criou e escreveu Taxi Driver e, se eu for um pouquinho viajante, consigo enxergar a influência do motorista de taxi punk de NY no padre, apesar de tudo religioso, e quase punk também de NY, só que do interiorzão.
Eu acredito na religião do cinema e acredito que Paul Schrader voltou à lida para nos dar essa bênção que é First Reformed, que se mostra muito como um culto onde coisas estranhas e, quiçá, sobrenaturais acontecem.
Não, First Reformed não é um filme fácil, de historinha contada como se deve. O filme é soturno, duro, austero e mostra muito o que deve ser a vida do padre canceroso.
O filme que começa como um documentário do cotidiano do padre, logo sofre um abalo que leva para um final de puro êxtase.
Esse é o Paul Schrader que eu tanto amo, que não veio para brincar, que nos entrega talvez o melhor final de filme de 2018, depois de toda a tensão e angústia criadas nos últimos 15 minutos de um filme formalmente minimalista com o resultado mais profundo possível.
Paul Schrade disse que este seja provavelmente seu último filme. Torço para que não seja mas se assim ele quiser, obrigado mestre por terminar sua carreira com a obra de arte que você merecia fazer.
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NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

