American Animals, já aviso, é um dos melhores filmes de 2018.
Baseado em uma história absurda e real, American Animals é um filme sobre a entrada na vida adulta, o velho e bom coming of age que geralmente é bonitinho e fofinho com um pouco de drama, travestido em filme de roubo de obras de arte super valiosas.
Os animais americanos do filme estão em um livro raríssimo e valiosíssimo que fica na biblioteca de uma universidade americana onde estudam 2 grandes amigos, um atleta com bolsa e um aspirante a artista que se dá conta da existência do livro e de como seria fácil roubá-lo e conseguir viver o sonho americano.
Mas os animais americanos também são os jovens, animais racionais que perdem essa pseudo superioridade, ou essa vantagem, quando o olho é maior que a barriga, como diria minha avó.
Com a ajuda de outros 2 amigos, eles pensam, planejam, viajam, voltam tudo para que os milhões de dólares que eles receberão com a venda os tire do marasmo de suas vidas pós adolescentes.
O que eles não imaginavam é que esse roubo seria um dos maiores roubos de arte da história americana. E nada dessa magnitude vem facilmente.
Já que citei minha avó, vou citar meu pai, que quando assiste um jogo de futebol, e o narrador fala de uma jogada ensaiada que não dá certo sempre diz “não deu certo porque não ensaiaram com o outro time”.
E na vida real é assim, quase nunca dá pra ensaiar com o outro time.
Daí já viu.
Mas falando em magnitude, a de American Animals é inteira culpa do inglês Bart Layton, o diretor que tinha nos presenteado com um dos filmes mais legais dos últimos 10 anos, O Impostor, onde ele conta a história de um cara que mente para uma família dizendo que ele é o filho que sumiu 15 anos atrás.
Filmaço.
Agora em American Animals, Layton usa do mesmo artifício do “docu drama”, ou da distorção da realidade fílmica a partir de depoimentos de pessoas que participaram da história real.
O que você vê no filme é confirmado ou contestado pelos participantes da cena real, só que a gente não sabe quem está com a razão, se quem contesta ou quem confirma, o que dá mais profundidade pra história.
Um outro segredo, ou um outro toque de midas do diretor é a trilha sonora do filme. A trilha original é linda e precisa e o cara ainda coloca em momentos cruciais, músicas que nos são quase conhecidas, que nos remete ao mundo real, mas ao mesmo tempo soam como novidades, como lados B’s do The Doors, Ace Frehley, Johnny Thunder e Primal Scream.
Ao nos manipular direitinho com esse recurso, Layton acaba criando o seu próprio universo, onde conta uma história como nunca contada antes. E com a ajuda de 2 atores que estão se destacando nos últimos 2 anos como possivelmente os melhores de sua geração: o irlandês Barry Keoghan, que ano passado roubou Dunkirk e O Sacrifício do Cervo Sagrado e Evan Peters, o muso do Ryan Murphy em American Horror Story e também (o meu muso) em Pose.
Peters é o atleta meio maconheiro, meio largado que se mostra o geniozinho na criação do plano do assalto.
Barry é o artista que tem a ideia do roubo e que confia cegamente no amigo.
As consequências da ação adolescente (porque eles são sim adolescentes de 18 anos de idade, uns moleques aventureiros que trocam um mochilão na Europa por um roubo genial) nos são colocadas como realmente aconteceram.
Os pais dos meninos da vida real discorrem brevemente sobre seus filhos e os então adultos, anos depois, nos mostram que a realidade pode ser mais estranho que a ficção, como já disse um diretor por aí.
E o melhor é quando um diretor como Layton percebe isso, filma como ninguém filmaria, e nos presenteia com essa pérola.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬
(só o trailer já é o melhor do ano)

