269/365 O ANIMAL CORDIAL

Ano passado O filme de terror do ano foi Corra. E todo mundo falou que o filme era o primeiro de uma nova onda ou de uma nova modalidade, que seria o terror sociológico.

Se essa modalidade existe, O Animal Cordial tem a honra de ser o primeiro filme brasileiro dessa categoria.

E mais: O Animal Cordial é o melhor filme brasileiro de 2018 disparado.

Eu tinha dito, e achava, que As Boas Intenções, outro terror, outro filme dirigido por mulher, era o melhor brasileiro de muito tempo.

Mas eu ainda não tinha visto O Animal Cordial.

Se você ainda não assistiu, não perca. O Filme ainda está em cartaz e nas salas da Cinemark ainda está com promoção e o ingresso custa só 7 reais, mais barato que a ida e volta de metrô.

O Animal Cordial conta a história de uns animaizinhos fofos uns com os outros mas que por trás são uns escrotinhos e quando acuados viram uns demoniozinhos.

Só que esses animaizinhos são os melhores exemplos da classe média brasileira.

Em um restaurante pequeno que já foi bem famoso e em princípio fino, durante o final de uma noite, logo depois de um casal bosta entrar e começar a tratar todo mundo mal, 2 ladrões invadem o restaurante e começam ameaçar clientes, o dono do restaurante e seus funcionários, não só gritando e dizendo que querem dinheiro, mas principalmente pegando as mulheres e abusando delas na frente de todo mundo, lambendo seus rostos e enfiando a mão em seus sexos.

O que eles não imaginavam é que o dono (um maravilhoso Murilo Benício, uma dos atores mais bacanas do cinema brasileiro) logo percebe que eles estão com armas de brinquedo em punho e pega um revólver que ele tem meio à mão no balcão e acaba com a festa dos assaltantes.

Só que para nosso espanto, nosso do espectador, é aí que o terror realmente começa.

Uma mistura de paranóia, desespero do mal, piração, toma conta dele e a próxima hora e meia de filme vai ser uma das coisas mais cruéis psicologicamente falando que eu já vi no cinema brasileiro.

O Animal Cordial é o filme que não faz concessão, vai pras cabeças, pro coração e pros rins e por isso, provavelmente, tem sido chamado de slasher brasileiro, meio que para desmoralizar o filme.

Felizes seríamos se todo slasher nos oferecesse metade do que este filme nos entrega de bandeja.

E só pra lembrar, o slasher é aquele filme onde um maníaco vai matando todo o elenco do filme, um a um, e geralmente o elenco mostra uma diversidade étnica e social e as mortes seguem até uma ordem também étnica e social. Sem esquecer no sexo, todo mundo que pode transa nos slashers americanos.

O Animal Cordial tem tudo isso, só que as coisas não são assim tão simples.

O roteiro mais do que bem escrito e absolutamente bem amarrado, escrito pela diretora Gabriela Amaral Almeida, é uma aulinha do que se deve fazer para criar uma obra prima.

Sua direção de atores é de um cuidado e dedicação ímpares.

O dono do restaurante (Murilo) e sua braço direito, a garçonete Sara (vivida pela absurda Luciana Paes), são o grande casal do ano.

A trepada que eles dão no meio do filme parece saída de um filme perdido do Kenneth Anger co dirigido pelo mais feminista dos diretores de terror e meu mestre, amo e senhor, Dario Argento.

A complexidade dos personagens, a profundidade de cada um deles, não deixa um senão em relação a seus atos no filme e o melhor, vemos um elenco perfeito, comprometido até o último fio de cabelo jogado no chão ensanguentado do restaurante.

Tudo isso e ainda não falei da trilha sonora, de Rafael Cavalcanti, um ótimo exemplo para os compositores que agora descobriram o Tangerine Dream e as trilhas dos filmes do Argento e aquela psicodelia sônica dos anos 1980 mas erram na mosca.

A trilha da O Animal Cordial é a típica trilha feita pelo cara que sabe exatamente onde colocar música e onde deixar silêncio, o que, segundo Hitchcock, é o grande segredo de uma boa trilha, não saber onde colocar música, que isso todo mundo sabe, mas sim onde não colocar a música no filme.

Demorei para ver O Animal Cordial mas ainda bem que vi em uma sessão em um cinema ótimo, com pouca gente, sem pipoca e sem gente com celular ligado, o que é uma raridade nos dias de hoje.

Corra!

Quer dizer, assista por favor!

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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