Um dos grandes filmes, não só de 2018 mas dos últimos anos, o uruguaio Uma Noite de 12 Anos, talvez seja o filme mais difícil sobre o qual vou falar por aqui esse ano.
Já vi o filme muitos dias atrás e desde então primeiro não consigo parar de pensar nele e segundo, não consigo pensar no que falar dele, a não ser que é uma pequena obra de arte perdida no meio de tanta porcaria que passa nos cinemas do no Brasil varonil.
O filme conta a história de 3 presos políticos uruguaios, depois que uma ditadura avassaladora tomos conta do país na década de 1970, que ficaram por 12 anos presos em regime de solitária.
Vou repetir: os 3 foram presos por 12 anos em regime de solitária. Feche os ohos e imagine isso.
Um deles, Pepe Mujica, virá a ser o grande presidente daquele país, anos depois, o cara que então conseguiu levar um pouco de lucidez e humanismo para um povo tão idiotizado e sofrido como nós brasileiros.
Uma Noite de 12 Anos com certeza teve um impacto profundo em mim porque há meses tenho trabalhado em um projeto audiovisual que se passa durante a ditadura brasileira, com presos políticos e principalmente exilados políticos, gente que foi mandada embora do seu país e tem que viver com esse peso nos ombros e na alma.
Por isso e pela proximidade que estamos com um novo momento de trevas intelectuais, filosóficas e políticas que promete tomar conta do nosso país, este filme uruguaio sobre algo que tenha acontecido há tanto tempo e que ao mesmo é tão próximo e tão possível que aconteça de alguma forma de novo por aqui, diz muito aos mais sensíveis e aos abatidos de hoje em dia.
É engraçado pensar e dizer que um filme desses deveria estar no currículo escolar de um país que leva em consideração um “escola sem partido” da vida. O que me amedronta é pensar que ao invés deste filme mostrar o horror, possa mostrar o exemplo e nos dias que estamos, acredito que isso seja bem possível.
Espero estar errado, espero que essa nuvem negra passe só com uma tempestade e que filmes como Uma Noite de 12 anos (e o meu projeto) sejam cada vez mais retratos de dias a serem estudados e não desejados.
Obrigado Alvaro Brechner, meu novo herói do cinema.
Obrigado pelos primeiros 30 minutos de filme, os 30 minutos mais artísticos tirando leite de pedra, mostrando de uma forma nunca vista o martírio do início de um golpe político do mal.
E obrigado também pelos últimos 30 minutos mais emocionantes de um filme dos últimos anos, 30 minutos que eu não parei de chorar a partir da versão mais linda já feita de The Sound Of Silence, a canção do Simon e Garfunkel de 1964, aquela que começa “hello darkness my old friend…”, fechando com chave de ouro e coroa de louro o melhor filme de 2018.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬


Um pensamento sobre “346/365 UMA NOITE DE 12 ANOS”