Embate no Furgão talvez seja o pior título que um filme já tenha recebido em terras tupiniquins. E olha que passamos anos e ano pela pornochanchada e os hoje clássicos “senta no Meu que eu entro na Tua”.
O pior é que esse título de reality show do Luciano Huck é bem apropriado ao filme egípcio, um libelo sócio-político que se passa inteiro, adivinhem, dentro de um furgão.
Ou melhor, na caçamba fechada de um tipo de um furgão usado pela polícia para transportar presos, o nosso velho e bom camburão.
O filme se passa depois que o Presidente egípcio foi deposto em 2013, quando o país estava em meio a turbulências políticas radicais com protestos na rua, pró e contra o então ex-Presidente, que fazia parte da Irmandade Muçulmana.
A polícia ia como podia terminando com esses protestos, que como vemos no filme eram mais violentos e efetivos que protestos que vemos por aqui, por exemplo.
A polícia vai prendendo a olho quem eles acham que são os arruaceiro, não importando se pró ou contra, não importando se inimigos entre eles mesmos e os colocando dentro do mesmo camburão, sem papo, sem negociação.
A grande coisa do filme é que desde o início, a câmera está também dentro do camburão e de lá nunca sai.
Quanto mais gente vai entrando, pobre, rico, homem, mulher, criança, bonzinhos, outros nem tanto, cristãos e muçulmanos, o camburão vai parecendo um retrato do que com certeza é o Egito nos dias de hoje.
Ou melhor, o que é qualquer lugar do mundo nos dias de hoje, gente de todos os lados de várias moedas diferentes que não se suportam, não conversam e querem chegar a conclusões.
Quanto mais quem está dentro do camburão briga e discute, menos ar eles respiram, ou melhor, um respira o ar do outro, um ouve o grito do outro que grita por cima e assim vão.
Esse micro eco sistema político cinematográfico é de uma beleza como eu nunca tinha visto.
Pensar em deixar a câmera lá dentro o tempo todo foi a jogada de mestre do diretor Mohamed Diab, porque nos coloca o tempo todo no meio da treta.
O filme é de um desconforto ímpar e isso é o melhor elogio que eu posso fazer a Embate no Furgão, além de inventivo e chocante.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

