170/2019 WIG

Wig é um ótimo documentário sobre Wigstock, o festival de drags criado pela lendária drag americana Lady Bunny.

Em 1984, Lady Bunny e sua turminha de drags do Pyramid Club, que na época eram vistas como o underground do underground que era a cena gay porque não eram nem as femininas, nem as barbies, nem a turma do leather num tempo que o mundo gay era bem segregacionista.

Els chegaram a conclusão que a maior agressão não era ser nada disso mas que a hiper feminização seria usada para agredir, quando ninguém esperaria.

Bunny, RuPaul, Larry Tee e mais uma galera, não aguentavam ir pra casa a hora que os clubs fechavam com o nascer do sol e resolveram ir a um parque no lado podre de NY onde só tinha crackeiros, junkies e traficantes e onde tinha um palco onde os caras ficavam fumando e injetando sossegadamente, já que nem a polícia ia pra lá.

Um dia eles resolveram fazer um after no parque, levaram equipamento de som, ligaram a música, o microfone e a sementinha foi plantada: Wigstock nascia ali como uma piada a Woodstock de peruca (wig).

Aos poucos as pessoas foram descobrindo essas festinhas, o segredo das drags foi espalhado e logo o parque ficou pequeno para Woodstock que acabou virando um festival anual e que durou até 2011.

Wig é tão divertido e bicha quanto Lady Bunny e sua turma.

E quem assiste Wig para ver as lendas todas, acaba se deparando sim com um filme bem bicha, divertido, nervosinho. Mas quando menos espera, recebe um banho de política no meio da cara.

Bunny é uma das grandes críticas da popularização das drags através de Drag Race, o programa de sua amiga Ru Paul, dizendo principalmente que como tudo hoje em dia, drag virou um negócio, onde você só precisa ter a peruca certa, a maquiagem impecável, um bordão pra repetir o tempo todo e se possível uma música meia boca.

Para ela e suas amigas, drag era diversão, era punk, era contestatório, era tabu e era assim que elas foram aos poucos abrindo as portas do discurso LGBTQ, dos anseios e medos mas principalmente dessas cultura toda.

Em 2018 o Wigstock voltou a ser realizado e o sucesso foi imenso, principalmente, claro, pela popularidade toda.

E mesmo assim Bunny focou seus convidados na turma de sempre do festival, tendo só 3 ex-Ru Paul, Willam Belli, Bianca del Rio e Alaska Thunderfuck.

Já as clássicas, as antigas, estavam aos montes: Michael Lynch, Linda Simpson, Flloyd, Blue, Charlene Incarnate, Candice Cane, Amanda Lepore, Charlene Incarnate, Todd Lubin, Bruce Cohen, David Burtka, Neil Patrick Harris e uma das mais fodas desde sempre, Kevin Aviance.

Wig é demais, um filme que não só é um tributo ao festival Wigstock em si, mas principalmente a quem sofreu pra chegarmos onde estamos, quem apanhava na rua, quem não tinha onde morar, quem era doido, extravagante, contestador, ousado, muitas vezes sem saber exatamente que era tudo isso e que não estava nem aí pra crítica, pra polícia, que se jogava, que se divertia, que incomodava e quem fez isso tudo pra hoje em dia termos o que temos, o casamento gay, a parada gay cada vez maior e muito mais.

O filme é dirigido por Chris Moukarbel, diretor do documentário da Lady Gaga e que aqui constrói o filme com material filmado na edição de 2018 mas principalmente com material de arquivo desde antes da primeira edição de 1984, muito material vindo do próprio Pyramid Club.

O grande problema do filme é que ele não é tão nervoso e vanguardista quanto a turma da Lady Bunny.

Wig é calminho demais, tranquilo demais, principalmente para quem conhece um pouco dessa cultura fora de Drag Race.

Talvez ele tenha pensado no filme para esse público jovem ou para quem assiste HBO e nnunca ouviu falar de nada disso. Sim, o documentário é da HBO americana e estreou por esses dias.

O medo de Bunny e de todas que estão envolvidas desde sempre, é que Wigstock vire uma Disneylândia.

E quando Wigstock virar o normal e não mais o trangressor, o representante da cultura do foda-se, alguma coisa deu muito errado.

Ou será que deu muito certo?

Pela cena final da performance da minha nova musa Charlene Incarnate, Wigstock ainda está dando tapa na cara da sociedade cada vez mais bunda mole que vivemos.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

Um pensamento sobre “170/2019 WIG

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