Graças aos Deuses do cinema que temos um diretor como o francês François Ozon.
O cara é o típico “autor”, no melhor sentido do termo de quem faz cinema de autor.
Ele faz muito filme, faz os filmes que quer, do jeito que quer, do jeito que escreve e um beijo pra nós, o público.
Tudo isso para nossa sorte.
Graças A Deus é seu mais recente filme e fala de um tema muito atual e muito polêmico: a pedofilia de padres da igreja católica.
E o melhor: tem um personagem de um padre que aceita e assume toda a culpa de todas as acusações que lhe são impingidas.
O filme começa contando a história de um homem de seus 40 e poucos anos (meu preferido francês Melvil Poupaud, com o nome mais lindo de todos), casado, com 4 filhos, que resolve contar sobre seu passado de coroinha quando era constantemente abusado pelo padre da catedral de Lyon ao descobrir que aquele padre ainda trabalha com crianças, tantos anos depois.
Com sua história indo a público, outros homens, todos eles entre 20 e 40 anos viram que também poderiam e deveriam contar suas histórias de abuso e culpar o padre e também a direção da igreja católica que sempre soube desses casos e nunca fez nada com o padre, que era querido e amado por sua congregação desde sempre.
Anos e anos depois, esse padre já está “aposentado” e quando confrontado com os homens que abusou, reconhece tudo o que fez, para espanto de todo mundo.
O problema é que os crimes todos prescreveram.
Até que eles encontram um homem mais jovem que também foi estuprado pelo padre pedófilo. Só que eles tem que convencê-lo a levar sua história a público.
Em tempos de #metoo, de “ninguém solta a mão de ninguém”, de sororidade, de colocando todos os demônios para fora para tentar ajudar quem sofra os mesmos abusos para que não se sinta sozinho, Ozon e seu Graças A Deus conta direitinho essa história toda.
E conta de uma forma tão leve e sem coitadismos e sem piedade, como eu acho que se devem ser encarados esses problemas, por piores que eles sejam.
As cenas dos homens confrontando o padre pedófilo são absurdas de claras e tranquilas, numa escolha de dramaturgia primorosa. Acho que poucos diretores teriam essa coragem de tirar todo o peso de problemas desse nível.
Além de tudo isso, para mim Graças A Deus é mais importante ainda porque se passa em Lyon, a cidade onde morei na França.
A igreja do padre pedófilo era pertinho de onde eu vivi, na residência universitária, e por ser a catedral da cidade, todas as grandes festas eram lá e eu sempre estava por perto assistindo.
O filme se passa todo em locações da cidade que são muito familiares a mim, é como assistir aquele episódio de Black Mirror filmado em São Paulo e ir reconhecendo as ruas e prédios.
Mais meia claquete só por isso.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

