E lembrar que teve uma época que eu não gostava dos filmes do Marco Bellocchio.
O mestre italiano sempre foi um enfant terrible, fazendo filmes transgressores, com personagens punks demais e ousou tanto que antes do péssimo e amado Buffalo 66, fez O Diabo na Carne, filme em que a atriz holandesa Maruschka Detmers fazia uma cena de sexo oral explícita, lá em 1986, antes disso virar modinha.
Desta vez ele nos brinda com o novelão O Traidor, a história do maior traidor da Cosa Nostra, a máfia italiana, Tommaso Buscetta, que viveu grande parte de sua vida escondido no Rio de Janeiro e nos anos 1980/90, quando ia preso, extraditado e votava pra cá, a mídia adorava chamá-lo de “BuesQUEta” e não com a pronúncia correta de seu nome “BuXEta”, para não ofender o povo que ainda era viúva da ditadura e não suportaria ouvir uma palavra parecida com buceta na televisão.
Mas é um novelão filmado por um grande diretor, um maestro mesmo.
O Traidor conta direitinho a história do homem que, por um trato de delação premiada famosíssima, contou tudo o que sabia (e o que não sabia também) para um juiz que acabou virando uma super personalidade na mídia italiana na época.
Parece com alguma história parecida com as que vivemos hoje em dia?
O Traidor é longo, tem quase 3 horas, parece uma novelona em seu roteiro quase burocrático, mas é um filme hipnotizante.
Fico pensando o quanto Bellocchio teve que engolir em seco a favor do filme careta, que deve ter custado uma pequena fortuna, para não criar suas sequências lindas o tempo todo.
Mesmo assim o filme tem pelo menos 3 delas, lindíssimas, muito inspiradas, como a matança num galpão meio escuro cheio de espelhos, não deixando nada a desejar a cenas de salas de espelhos de clássicos anteriores.
E não só isso: a última esposa de Buscetta foi uma brasileira, que no filme é vivida pela lindona Maria Fernanda Cândido.
Particularmente eu não gosto muito dela como atriz, sempre lânguida, de cabelão lindo, falando baixo mas com olhar firme e triste.
Neste filme não é diferente, a fofa é tudo isso, mas pela primeira vez pra mim ela está bem, essa história toda faz bem para seu papel de esposa apaixonada de bandido.
Ela tá tão bem que ontem, ao final do Festival de Veneza, Maria Fernanda Cândido saiu com o prêmio de melhor atriz em filme italiano. E O Traidor ainda levou mais um monte de prêmios, inclusive de melhor filme italiano do Festival.
A história de Buscetta é a típica de mafioso que trai a associação e é perseguido pela polícia, pelos seus ex-amigos, por todo mundo, faz plástica, mora no Brasil, consegue proteção pra morar escondido, volta pra delatar mais, mata uma galera, é rancoroso, é filhodaputa, tudo isso que a gente já conhece.
Mas Bellocchio consegue fazer um filme bem bom com todas essas obviedades, sem julgamentos de nenhum lado, sem sentimentalismos.
E a culpa disso tudo funcionar, mais até do que do maestro, é do ator Pierfrancesco Favino que brilha em absolutamente todas as cenas e carrega o filme nas costas. O que não é pouco, porque o elenco do filme é um absurdo de bom com grandes personagens e grandes atores.
Um P.S. ufanista: o filme é co produzido pela produtora paulistana Gullane e o logo deles é o primeiro a aparecer nos créditos.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2


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