Artik é com certeza o Mandy de 2019.
Pra quem não se lembra, Mandy foi o filme mais Doido (com D maiúsculo) de 2018, aquele que parece uma viagem de LSD do mal com o Nic Cage.
Agora imagina misturar Mandy com O Reflexo do Mal, outro filminho bem doente de lindo com o Deuso Viggo Mortensen?
Artik não tem nem o Nic, nem o Viggo, mas nem precisa, porque a viagem é tão do mal quanto.
O Artik do título é um serial killer obcecado por histórias em quadrinhos. Poderia parar por aqui que já tava bom, né?
Calma.
O cara é tão doido, mas tão doido que ensina seu “filho” adolescente suas “técnicas”, como ele mata as pessoas num galpão nos fundos de seu sítio onde planta girassóis, coisa mais linda.
O cara é casado com uma outra doida, tem uma molecada enorme que trabalha no sítio, tem a plantação de girassóis absurda de linda e tem o galpão de tortura e assassinato, onde ele guarda sua coleção de HQs e onde ele também desenha suas histórias, meio que autobiográficas.
Poderia parar por aqui que já tava mais que bom, né?
Esse filho do cara que tá sendo doutrinado é um ótimo grafiteiro, faz umas tags pela cidade com o nome Artik e um dia é visto por um carinha mais velho, todo bonitão, tatuado, cool, que percebe que o moleque tem algum problema sério.
Ah, um detalhe: esse cara é straight edge, aquele punk radical que não come carne, não bebe, não se droga e não se diverte.
Só que o relacionamento do punk e do moleque vai se aprofundando chegando à beira de um amorzinho mesmo, quando o moleque relaxa e se abre de vez mostrando alguns de seus desenhos que são imagens de seu pai Artik torturando e matando pessoas, meio que retratos de cenas que aconteceram.
O punk pira, pede ajuda de seu conselheiro do grupo de apoio straight edge e a merda toda fica bem doida.
Se não bastasse essa história bem desgraçada do mal, o roteiro de Artik é tão bem escrito que dá até raiva.
A direção de Artik é tão bem cuidada, tão delicada, que dá mais raiva ainda.
Na verdade tudo no filme é muito bom.
O elenco é incrível, um bando de gente desconhecida que parece que nasceu pra esses papéis.
Jerry G. Angelo, que faz Artik, o pai serial killer que cuida bem do filho mas que é um dos vilões mais cruéis do ano é meu novo ator fetiche. Ele é um monstrão absurdo de bom.
Chase Williamson, que faz o punk careta, é um atorzinho de quinta de um monte de filmeco que aqui se mostra outro monstro, quase rouba o filme.
Mas o absurdo dos absurdos é o moleque que mal fala, Gavin White, que eu sempre vejo em Black-Ish e que aqui, com um roteiro bom e um puta diretor, mostra que tem um futuro ridículo de bom por vir.
Já falei da fotografia e da direção de arte do filme? Putz, é de chorar o cuidado gasto ali. Vou falar de novo, mas é que vale ressaltar, a plantação de girassóis, as cenas noturnas no meio do mato, a fazenda toda, que absurdo.
Artik é o tipo de filme que deve ter acontecido de uma maneira muito parecida com a que rolou para O Caçador de Cabeças acontecer. Produções com baixíssimo orçamento, feitas em locações no meio do nada baratíssimas, escolhidas a dedo, com elenco desconhecido mas com um cuidado de pré e pós produção sublimes.
Pra terminar, preciso falar da trilha de Artik e do quanto a edição do filme se deve à música que destrói o cérebro tanto quanto as cenas de tortura.
Artik já começa a milhão, com a trilha quase mais alta que os (poucos) diálogos, em sequências absurdas de 2 pés no peito, mostrando o qua vamos ter que suportas em curtos 80 minutos (que no final duram horas, de tão intensos que são).
Artik é um filme radical, tanto que tem note baixa no imdb e 100% no rotten tomatoes. É um filme, como dizem os idiotas, pra poucos, mas que deveria ser referência de monstros da vida real, pra todo mundo.
Artik é brutal, é lindo, é cruel, é o primeiro filme do diretor e roteirista Tom Botchii Skowronski. Só espero que ele continue nessa pegada e não ceda às tentações hollywoodianas.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

