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301/2019 SINÔNIMOS

Sinônimos, o vencedor do Urso de Prata do Festival de Berlim de 2019 é o mais importante e ousado filme sobre imigrantes e expatriados desses nossos tempos sombrios.

O filme conta a história de Yoav, um israelense que acabou de chegar em Paris fugindo com vontade de sua terra e já na primeira “interação”, vai a um apartamento vazio que o indicaram para tomar um banho e passar a noite. Só que durante o banho todos os seus (poucos) pertences são roubados e ele fica nu no inverno cruel francês.

Quando está apagado na banheira com o que restou da água quente, é salvo por 2 vizinhos do apartamento que o aquecem, o alimentam e o preparam para a vida francesa que com certeza não vai ser fácil.

Mas o bonitão Yoav não é o imigrante usual. Ele é um cara que não tem vergonha, não tem papas na língua, saiu de seu país porque quis e com a ajuda de um pequeno dicionário de sinônimos, fala e conta suas histórias e é gentil e nada sutil.

Quando ele usa quase 10 adjetivos para massacrar seu país de origem ele não está só se mostrando, mas está principalmente mostrando porque faz o que está fazendo.

O personagem que passa o começo do filme nu, congelando no apartamento vazio, ganha um uniforme de sobrevivência, um sobretudo amarelo gema que vira sua capa de sobrevivência em sua nova pátria.

Pátria sim, como ele deixa bem claro ao declarar seu amor pelo país que não conhece mas que através da língua que ele domina bem para um imigrante, Yoav e suas histórias cheias de hipérboles (e de sinônimos, claro) funcionam quase como uma apropriação de um herói renascendo e se redescobrindo em outro mundo.

Sinônimos parece um filme malucão, conceitual, bem modernoso com câmera esperta, ângulos inusitados, edição primorosa (aliás, a editora é a mãe do diretor a quem ele dedica o filme). Mas não deixe a forma te enganar: o conteúdo de Sinônimos é mais valioso que tudo isso junto.

Nadav Lapid, seu roteirista e diretor, criou uma história com muitos traços autobiográficos e deu vida ao anti herói Yoav, o cara que não quer voltar para sua casa, para sua família porque ele tem certeza que seu propósito de vida é muito maior.

Tudo lindo e maravilhoso mas a grande coisa de Sinônimos é o ator que dá vida ao herói caído, Tom Mercier.

Parece que esse é o primeiro filme do israelense de 26 anos que me fez torcer com unhas e dentes para qualquer coisa que Yoav quisesse fazer durante o filme.

Como seu personagem, ele é forte, bonito, não tem vergonha de ficar pelado nem de seduzir todos a sua volta e por isso tudo que o personagem é tão forte e relevante e interessante como vemos no filme.

Mercier tem aquela cara de “será que ele é ator mesmo ou só um modelo bonitão e sarado que o diretor quis colocar no filme?”.

Não se deixe enganar. Mercier é o cara perfeito para o filme. Sua ingenuidade artística aliada a sua falta de vergonha física (sim, isso é um elogio) por motivos óbvios faz de Yoav um dos grandes personagens de 2019, o cara que quer de qualquer maneira encontrar uma vida nova em um lugar desconhecido e estranho, através de suas histórias de vida que para ele são tão importantes e valiosas que um dia as dá de presente para um escritor como forma de retribuição por sua ajuda.

Sinônimos é o filme que você não sabia que precisava assistir urgentemente e que por sorte sai direto da Mostra de São Paulo para o cartaz dos cinemas brasileiros.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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