090/2020 VIVARIUM

Vivarium, ou viveiro em português, é uma jaula, ou uma gaiola, um ambiente fechado onde você cria animais ou plantas, seres vivos, até que eles cresçam e possam se virar sozinhos.

No filme Vivarium é exatamente isso que acontece com o casal de namorados Gemma e Tom.

Um dia, à procura de uma casa para quando seu plano de casamento se concretizar, eles são levados a conhecer um condomínio bem classe média, bem típico de filme de família feliz onde ruas e mais ruas de casas idênticas tira toda a personalidade como um uniforme faz com que nos sintamos todos iguais, ninguém melhor ou mais feliz que ninguém.

Enquanto visitam a casa, guiados por um agente imobiliário de meter medo, eles se deparam cada vez mais com detalhes que os tiram toda e qualquer vontade de lá morarem.

Mas quando resolvem ir embora, tarde demais.

O tal agente bizarro sumiu e eles não conseguem sair do condomínio.

Literalmente.

Eles ficam dirigindo e dirigindo por todas as ruas idênticas, sem nenhuma dica de entrada ou saída do lugar, até que o combustível do carro acaba.

E eles passam o resto de suas vidas naquela casa de bonecas, naquele condomínio absolutamente vazio, a espera de novos casais por lá ou de notícias de como sair de lá ou de um sinal de fumaça que seja.

A única novidade em suas vidas que agora virou uma monotonia enlouquecedora, é a chegada de uma caixa diariamente com comida e roupas e utensílios que eles precisariam para lá viverem.

Não só a casa parece de boneca mas a comida que eles recebem dentro da casa, tudo parece vindo de uma fábrica de produção em massa, sem personalidade nenhuma.

Até que um belo dia, ao abrirem uma caixa, Gemma tira de dentro uma bebê.

Lá continuam o casal agora com uma criança que cresce desparatadamente, que imita “seus pais” na forma de falar, de andar, de se comportar. E o pior, o jeito de falar e de imitar os pais é cada dia mais parecido com o do agente imobiliário bizarro.

Gemma e Tom, ao mesmo tempo que vão desistindo de viver, quase, tentam encontrar novas formas de lá saírem.

Por exemplo, Tom sobe no telhado da casa para tentar achar o final do condomínio e a direção para onde devem seguir e não acha.

O horizonte é completo de casas como a sua, para todo lado que ele olhe.

Quanto mais o menino cresce, mais o casal vai se “perdendo”. E como disse, o menino cresce rápido e quando menos eles esperam, já é homem feito.

Se você leu até aqui já entendeu e eu não preciso falar da óbvia metáfora da classe média e sua pasteurização em seus condomínios e escolas e uniformes na vida toda.

Vivarium é uma crítica social empacotada em uma ficção científica de horror, com a direção de arte mais incrível e com um casal de atores que me deixou mais que impressionado.

O filme é uma descida ao inferno do casamento perfeito só que não de propósito. É o uso de uma forma de narrativa sendo explorada ao máximo de uma forma totalmente fantástica, como nunca vista anteriormente. Quase.

Imagine uma episódio de Além da Imaginação ou de Black Mirror elevado à melhor potência.

É aquele tipo de pesadelo que eu amo odiar e lembrar que eu tive, quando sonho que estou com chiclete na boca que vai aumentando de tamanho e eu não consigo cuspir.

Desespero total.

Imogen Poots já é uma dessas atrizes novas que eu venho gostando cada vez mais e que está prestes a se tornar uma das grandes de sua geração. No papel de Emma ela mostra toda a sua possibilidade artística, indo do desespero ao afeto em um piscar de olhos.

Jesse Einsenberg é a grande surpresa pra mim. O cara que sempre faz o mesmo papel de sub neurótico woody-alleniano desta vez, com um personagem cheio de níveis, chegou onde eu pensei que não chegaria.

Vivarium é um filme irlandês escrito e dirigido por Lorcan Finnegan que estreou em Cannes, 2019 e que eu espero que faça sucesso o suficiente para que mais coisas venham da cabeça interessantíssima desse autor.

P.S.: Vivarium me lembrou em muito Gattaca, um dos filmes da minha vida, outra ficção científica de meter medo, mas sem atingir o nível de brilhantismo do filme de 1997 e mesmo assim, sem demérito algum.

P.S.: lançado em meio a pandemia, Vivarium acabou tendo uma outra leitura, do desespero do confinamento involuntário. Mas essa teria que ser outra resenha.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

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