192/2020 BEATS

Vez ou outra aparece um filme do nada que me deixa tão destruído que eu vou te contar.

Ouvi falar de Beats dias atrás lendo uma entrevista do Steven Soderbergh onde ele dizia que, depois de assistir um episódio da série lindeza Black Mirror, foi atrás do diretor dizendo que queria trabalhar com ele.

O escocês Brian Welsh estava para lançar seu indiezinho mais lindeza e o resto é história.

No cartaz aqui do post dá pra ver o destaque que tem o nome de Soderbergh, o quanto é importante um cara desses entrar num projeto pequeno como esse.

Beats parece uma bobagem.

É um filminho pequeno de tudo, feito em preto e branco, sobre 2 amigos adolescentes que moram na periferia de Glasgow em 1994, o melhor lugar do mundo num dos anos mais importantes de todos (na minha opinião).

Um deles é Johnno, um moleque em princípio certinho, mora com a mãe e o padrasto policial em uma família prestes a se mudar para o subúrbio e tentar fugir dos perigos da periferia.

Um desses perigos, Spanner, companheiro de Johnno, irmão de um bandidinho, mas o cara mais corajoso de todos, segundo seu amigo.

Eles estão descobrindo a música eletrônica que está aparecendo grande e que em pouco tempo iria mudar a cara da Grã Bretanha, principalmente de Glasgow.

Acontece que em 1994 uma lei é promulgada proibindo festas em lugares abertos onde a música tocada fosse de um ritmo repetitivo: a música eletrônica.

Era a lei anti rave, que veio até tentar parar aqui no Brasil sem sucesso.

Só que por lá, enquanto a lei estava em tramitação, as raves viraram eventos de contravenção, como eles diziam à época.

Só que a molecada se jogava lindamente.

E Johnno e Spanner acabam em uma das melhores raves possíveis, apesar de todos os pesares de não terem dinheiro, nem autorização e nem direito a manha do que e como e onde.

O bom da amizade dos dois é que eles não ficam esperando acontecer e vão abrindo o caminho para uma aventura daquelas que mudam vidas.

E se não mudam vidas, acabam virando histórias para serem lembradas pelo resto dos dias.

Isso tudo me remeteu obviamente a tempos bons demais de festivais de música eletrônica, de alguns excessos, de muitas viagens e o uma das coisas mais lindas do filme é a descoberta do extasy, a droga do amor.

A hora que eles tomam e entram na tenda para ouvir a música a milhão e Johnno em princípio não sabe o que está acontecendo e seu amigo Spanner o encaminha, quase de mãos dadas, para a luz, foi de chorar de nostalgia.

A hora que a viagem bate com a música, o momento dos abracinhos e dos “eu te amo”, os momentos de dançar de olhos fechados, de achar que nem precisaria namorar se ficasse sentindo aqui, de querer que o outro sentisse o que eu estava sentindo. os momentos de observar e agradecer a brisa.

É a grande representação da perda da ingenuidade, do próximo passo da vida, do virar gente grande e do conhecer o amor, o amor fraternal, de saber que a gente acaba escolhendo nossa família, quem deve estar do nosso lado nos momentos mais emblemáticos da nossa vida.

Beats talvez seja o filme que melhor represente esse momento tão marcante dos idos anos 1990, sem ser doidão demais como um Trainspotting (que é clássico indiscutível) e nem careta demais como um monte de comédia romântica besta por aí.

Ao terminar de assistir Beats, eu estava destruído.

Destruído de nostalgia, de pensar o quanto essa época e antes antes, no meu caso que sou mais velho, então lá por 1988/89 eu tive esse tipo de primeiras experiências absurdas pela Inglaterra, de pensar o quanto aquilo foi bom, de pensar nas memórias sempre boas no meu caso.

E também destruído por pensar que essa fase de rave culminou com a época dos festivais de música eletrônica por aqui onde essa sensação de amorzinho e abracinho durou ainda por um tempo mas há tempos acabou.

Fiquei pensando se eu realmente estou velho por não encontrar mais onde ir e com quem ir, pra sentir isso tudo de novo e lembrei que tentei fazer esse rito de passagem para festivais de rock que quase substituem os eletrônicos que já não existem mais como 10 anos atrás.

Mesmo eu preferindo ouvir rock, os festivais eletrônicos e as raves tinham outra vibe e muitas vez eu ia sem nem curtir tanto a música, me satisfazendo com um ou outro dj set ou showzinho mas delirando na sensaçãoo de amor geral, quase psicodélico mesmo.

Com a Covid-19 então, tudo isso parece que aconteceu em outra vida, o que meio que foi.

No final das contas, além de me divertir demais, porque o roteiro é redondinho e o diretor é mesmo dos melhores, Beats me fez refletir sobre outras épocas e outros mundos que fizeram com que eu chegasse aqui desse jeito

E que de uma forma ou de outra, apesar da nostalgia e de um pouco de tristeza, Beats me fez lembrar que eu já fui feliz e sabia.

E amava todo mundo.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

Um pensamento sobre “192/2020 BEATS

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