061/2022 THE BATMAN

O problema em assistir um filme tão maravilhoso como The Batman é ter que voltar à vida normal e passar pelo menos uns 300 dias deste ano assistindo filmes medíocres.

Que ódio!

Em 2013, Steven Spielberg disse que em 15 anos, a gente pagaria um preço para assistir um filme de super heróis e outro para assistir os filmes “normais”.

Bom, em 2013 Spielberg errou 2 vezes: a primeira quando lançou Lincoln (que filme é aquele?) e a segunda quando previu os 15 anos.

The Batman é lançado nos EUA com um preço de ingresso absurdamente maior que o dos outros filmes em cartaz, inclusive Amor, Sublime Amor do próprio Spielberg, que aliás, só não é um filme mais perfeito porque acaba.

Claro que por aqui os preços de bilheteria são os mesmos (são?) e ontem eu assisti The Batman pelo preço da porcaria Uncharted (aliás, quem ainda adapta video game pro cinema?).

Depois de 3 horas que pareceram 10 minutos vibrando e suspirando e tremendo dentro do cinema, pensei uma coisa: eu teria gastado mais dinheiro pra assistir essa obra de arte do diretor Matt Reeves.

Sob uma trilha que tem como tema base a Ave Maria de Gounod, The Batman é o filme de super herói menos filme de super herói de todos.

The Batman é noir da década de 1940, é policial da década de 1970, é drama existencial sessentista e é porradaria atual.

The Batman não é tão fantasioso quanto a era do Tim Burton, a primeira fase no cinema, onde o camp mandava e todos os personagens pareciam ter saído diretamente dos quadrinhos para a telona. Também não é tão intelectualizado quanto a era Nollan, onde tudo nos filmes remetiam a algo novo, principalmente ao próprio universo cinematográfico do diretor.

E pra nossa sorte, The Batman não tem NADA a ver com a era dos filmes da Liga da Justiça, uma das piores coisas do cinema hollywoodiano.

The Batman é um filme feito para os dias de hoje, caóticos, perdidos, sem esperança, com enchentes e pandemias e guerras e pobreza e muita, mas muita corrupção acabando com o ser humano.

O que Bruce Wayne na pele do ótimo Robert Pattinson (sim, sou fã dele há tempos e sempre deixei claro por aqui) precisa fazer é tarefa para alguém que seja super humano, mesmo que seja um bilionário escroto que, como diz a candidata a prefeita de Gotham, precisa sair das sombras e ajudar mais a cidade que está desmoronando a olhos vistos.

O Pinguim, a Mulher Gato, o Charada, clássicos vilões das histórias do homem morcego, são peões nas mãos dos verdadeiros homens do mal, os políticos corruptos e os mafiosos, que andam lado a lado e que em The Batman a gente não consegue distinguir quem é quem, já que como na vida real são farinha do mesmo saco.

E apesar de não os distinguirmos, o roteiro de Reeves é tão preciso, tão bem escrito e desenhado que em nenhum momento eu fiquei pensando “pera, de quem eles estão falando mesmo?’, mesmo o filme ter dezenas de vilões, um pior que o outro, um mais poderoso que o outro, um querendo comer o fígado do outro.

Reeves estudou muito o personagem para reescrever o roteiro deste projeto que estava nas mãos do (blergh) Affleck para dirigir. E Reeves não só começou do zero como teve resoluções importantes sobre o filme.

Pra começar, The Batman não é um filme de origem, o que pra mim é ótimo porque se tem uma origem que todos nós amantes do pop conhecemos é a do homem morcego. E por mais profundo, dark, gótico que seja o roteiro final, Reeves presta homenagens o tempo todo a toda trajetória de seu personagem, a toda sua história. Pra vocês terem ideia tem até cena do Batman andando pela parede de um prédio, além de uma quantidade ridícula de referências lindas que aparecem no filme que eu só fico imaginando uma edição do filme com comentários do diretor.

A única coisa que em princípio me irritou foi a franja do Bruce Wayne, mas que aos poucos eu fui me acostumando, já que até faz sentido para o personagem neste filme, que aliás, tem cenas e sequências “roubadas” pelos personagens coadjuvantes o tempo inteiro, prova de que o roteiro foi bem generoso com todo mundo.

Zoe Kravitz de Selina/Mulher Gato é uma das coisas mais lindas do filme. Ela é pequena, magrinha, quase dá dó dela em meio a quantidade infinita de homem grande. Mas ninguém resiste as suas porradas quando ela está de couro quebrando tudo.

Colin Farrell, irreconhecível sob os quilos de maquiagem que o transformou em Pinguim, me fez mudar de ideia em relação exatamente ao uso indiscriminado de quilos de maquiagem para transformar totalmente um ator.

E Paul Dano, ah o Charada de Paul Dano, putaquemepariu, que personagem foi esse. A dicotomia da pessoa física com a pessoa jurídica que Matt Reeves nos apresente em Paul Dano é maior que tudo em The Batman, maior que a dicotomia do homem morcego e de todos os outros personagens que são bem radicais em suas 2 vidas.

O Charada é um terrorista sadomasoquista extremo, que consegue formar um exército de minions mais perigoso do que a polícia de Gotham pode prever. E esse personagem, com seu discurso raso mas seu poder via internet, com seus seguidores cegos, surdos e mudos, tão comuns hoje em dia causando toda a desgraça que causam por lá e por aqui, esse personagem e seu exército foram tão bem retratados na história do gótico alado que me dá mais medo ainda de vê-la em tela grande.

The Batman é tão bom contando uma história tão deturpada, mostrando uma realidade tão fudida e tão possível, que a música tema de seu personagem é Something In The Way do Nirvana, uma música sobre a desesperança, o fundo do poço, ser “ressignificada” e usada no filme quase que como um hino de luz no fim do túnel.

Por falar em luz, a fotografia de The Batman criada pelo australiano Greig Fraser (de Duna) é uma das grandes personagens do filme, assim como o som era personagem de Dunkirk. As sombras em The Batman dizem mais que os raios de luz. O que a gente acha que não enxerga (ou como os preguiçosos tanto dizem sobre a luz atrapalhando) diz muito mais sobre o filme, ajuda a contar ainda mais a história do homem recluso que só sai para a luz muito de vez em quando e quando sai, é fantasiado de morcego dos pés a cabeça.

Quando eu sempre falo que o Batman não é super herói e as pessoas brigam comigo, eu gosto de repetir: seja menos preguiçoso. O cara só é o Batman porque é bilionário e, como diz uma personagem do filme, pode ter um cinto cheio de bugigangas para ajudá-lo a fazer as coisas.

E não só o cinto, mas também o bat móvel, que aparece em The Batman numa sequência típica de momento que a platéia vai ver o monstro do Alien pela primeira vez, com toda pompa, circunstância e garbo, saindo das trevas (olha lá as luzes ou a falta delas de novo) e dando início a uma das melhores perseguições de carro da história do cinema.

The Batman é isso, um filme que reescreve a história do homem morcego no cinema, um filme que repensa Hollywood e seus super heróis, um filme que dá a cara a tapa em relação ao que o fandom do Batman mal influenciado pelo delirante Zack Snyder vai pensar do seu herói e que por isso tudo e muito mais me fez delirar no cinema, em uma sala cheia que ao final aplaudiu o filme, algo que eu não presenciava há mais de 2 anos e que me deixou arrepiado até o último fio de cabelo com uma quantidade enorme de imagens criadas por Matt Reeves que ficarão para sempre, como por exemplo os encontros do bat com a cat, do homem morcego com a mulher gato, no filme que se chama The Batman e que ninguém chama o batman de batman.

Gênio.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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