O francês Alain Guiraudie até agora para mim era diretor de um filme só.
O seu Um Estranho no Lago, de 2013, é um dos maiores filmes gays de todos os tempos: estranho, quase surreal e muito sexual, algo que não era tão usual no cinema, na época.
Desde então ele não lançava um filme bom até que em Cannes 2024 ele veio com Misericórdia, um dos melhores filmes do Festival e do ano. A Cahiers Du Cinema, por exemplo, o elegeu o melhor filme de 2024, no que eu achei um pequeno exagero mas entendo por ser talvez o melhor filme francês de 2024 mesmo.
O interessante de Misericórdia, para mim, foi que eu não esperava uma pontinha de senso de humor em um filme do quase pessimista Guiraudie.
E mais! Eu passei o tempo inteiro assistindo Misericórdia e pensando que a ideia do filme era obviamente de Guiraudie mas que o roteiro poderia ter sido escrito pelo François Ozon e que a principal personagem feminina do filme, Martine, poderia ter saído de alguma comédia tonta do Ozon.
Mas Misericórdia é sobre Jérémie, um padeiro de seus 30 anos de idade que volta a sua cidade natal para o funeral de seu primeiro patrão, o padeiro da cidade.
Ao invés de ir embora após o “evento”, ele é convidado pela viúva Martine para passar uns dias por lá, se ele não precisar votlar correndo para trabalhar.
Ao aceitar, Jérémie não poderia imaginar onde ele estaria se mentedo, uma história tão bizarra que poderia estar num filme do Lynch ou dos Trapalhões, de tão radical que é a “aventura”.
Primeiro ele se reconecta com uma florestinha da cidade onde as pessoas vão colher cogumelos e onde o Padre da cidade vai aos poucos se “afeiçoando” por Jérémie e se aproximando o quanto pode, a ponto de jantar quase todas as noites na casa de Martine para poder pelo menos estar no mesmo cômodo que o visitante.
Aliás, o visitante é vivido por Félix Kysyl, um ator meio estranho, meio feioso, que nesta quase fábula psicodélica vive o estranho e feioso Jérémie, que é elevado ao posto de galã da cidade, ou do vilarejo, melhor dizendo, já que os principais personagens masculinos acabam de uma forma ou de outra tendo alguma interação quase sexual com o padeiro.
E ao mesmo tempo que esses homens estão tentando alguma coisa com Jérémie, eles acreditem que o visitante possa estar interessado na viúva do padeiro que o está acolhendo. E pior, o filho dela, Vincent, o feio real da aldeia, tentar arrebentar a cara de Jérémie sempre que pode, o que acaba com consequências inimagináveis.
Quanto mais Jérémie fica por lá, mais ele se enrola em situações estranhas que são quase que relevadas pela viúva ao mesmo tempo que são “resolvidas” pelo padre tarado e super dotado.
Sim, o padre tem um pintão que (in)felizmente explica muito do roteiro de Guiraudie, que vai com maestria nos envolvendo nessa doideira quase vaudevilliana, tipicamente francesa de muitos diálogos e de tensão sexual aparente. E sem vergonha.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

