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ADOLESCÊNCIA, a série queridinha é bem mais ou menos.

Sinto ser o portador de más notícias.

Ou melhor, sinto ser o portador do balde de água fria que vou jogar em suas expectativas ou em sua recente paixão pela série Adolescência.

Mas essa nova série da Netflix, que em sua primeira semana de lançamento já é considerada a melhor do ano e/ou uma das melhores de todos os tempos e/ou exemplo da genialidade da Netflix, não é essa belezura toda não.

Eu explico.

Adolescência é uma mini série inglesa, com 4 capítulos sobre um crime horroroso: uma adolescente de seus 14 anos de idade morre esfaqueada por um colega de escola, Jamie, um menino de 13 anos de idade.

Isso não é um spoiler, o primeiro episódio começa com a polícia invadindo a casa de família de classe média de Jamie para prendê-lo.

Começando do começo, o tema da série é o mais relevante possível.

Inclusive, Stephen Graham, que faz o papel de Eddie, o pai de Jamie, o adolescente preso, é um dos criadores de Adolescência.

Ele contou que a ideia primeira veio quando em um intervalo curto de tempo ele leu notícias sobre duas adolescentes mortas na Inglaterra por outros 2 adolescentes, quase que “normalizando” um horror desses.

Contar uma história dessas em uma mini série que seria vendida para a Netflix não foi suficiente para a equipe de criação.

E sim, na minha modesta opinião, só a ideia de contar essa história já seria suficiente para o sucesso da série.

Mas alguém teve a brilhante ideia de filmar os 4 episódios em plano sequência.

E aí que o negócio pegou para mim.

Todos os filmes, séries, novelas, mini séries são filmados plano a plano, que é como se chama a ação de uma sequência, de uma cena.

O plano sequência é a forma que esse plano, essa cena, seja filmada sem cortes, com a câmera sem ser desligada e por isso a cena, a sequência, precisa ser criada para que “caiba” nessa forma.

Um grande exemplo dessa forma, dessa técnica, é o filme Festim Diabólico, filme de Alfred Hitchcock de 1948, que se passa em uma festa em um apartamento onde um cadáver esta escondido no baú que serve de mesa de centro da sala. 

Outro bom exemplo é Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância), em cartaz na Disney+, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2015. 

Como no filme de Hitchcock, em Adolescência a gente sabe quem é o “bandido” e por isso o roteiro tem que ser (e é, em ambos os casos) genial para prender a nossa atenção em todos os momentos.

Usar a técnica de plano sequência, na minha opinião, funciona muito no filme de Hitchcock primeiro porque ele tem 1h30 de duração, então não incomoda tanto não ter cortes, classe, planos abertos, uma montagem dinâmica.

Em Adolescência, como em Birdman, a técnica fica chata. Pra mim. Mas eu sou uma voz dissonante no batalhão de apaixonados pelo truque, ops, pelo estilo da série.

O diretor não poder cortar, não poder ter uma sequência de closes, de respostas, o que pra mim, faz muita diferença.

Mas uma coisa é ótima na mini série: de cara a gente sabe quem matou quem. Não tem o “whodunit” do Hitchcock, é roteiro bom pra te entreter até o final, já que a gente sabe quem é o assassino. E o legal é ir aos poucos descobrindo o quanto o assassino é fruto de uma sociedade desgraçada que o rodeia. Todo mundo tem culpa, pro bem ou pro mal.

O episódio 3 de Adolescência, que todo mundo ama, que todo mundo considera o máximo da inventividade, poderia ser muito mais incrível com cortes, com flashbacks, com reações das pessoas fora da cena principal e por aí vai.

Eu digo isso tudo mas eu mesmo já fui um utilizador do plano sequência e ganhei um Leão de Bronze no Festival de Cannes com um comercial que eu dirigi para a Associação Protetora dos Animais onde um jacaré ficava mal quando descobria que sua esposa tinha virado bolsinha e estava sendo usada por moças que viravam bolsinhas.

Eu tenho certeza que o prêmio veio por 2 motivos: primeiro pela “piada” em si e depois pela forma como eu filmei, sem cortes.

Mas de novo, em Adolescência, a série da hora, o estilo ficou aquém do que eu esperava, porque o que vemos do jovem ator Owen Cooper, em seu primeiro trabalho como ator, é maravilhoso. O menino dá vários showzinhos, em especial no tão amado episódio 3. E com um trabalho maior de decupagem e direção aí sim eu acredito que isso tudo teria ido aos céus, já que por momentos faltou cortar e refazer e reensaiar, mas cortar um plano de 50 minutos já rodados é cruel.

Não cortar é difícil, dá trabalho, precisa ensaiar, refazer, dirigir bem, avisar figurantes, todo mundo possível mas que falta me fizeram os cortes. E olha que pelo que li o primeiro episódio “deu certo” na segunda tentativa. Jea o quarto episódio deu certo na 14a tentativa. Imagina a exaustão, a tensão.

Fora que eu fiquei o tempo todo tentando enxergar onde estão os cortes, porque por mais que haja ensaios, os caras cortaram. Eu enxerguei 2 mas acho que devam existir vários outros, o que, por exemplo, no Festim Diabólico a gente enxerga sempre, já que em 1948 não se podia filmar mais do que um tempo limitado, por causa dos rolos de negativo. Daí Hitchcock fazia sua câmera passar atrás de colunas e móveis para continuar a sequência.

Apesar de todos os pesares, ou por causa de todos eles, assista Adolescência, a série é sim o máximo, eu que sou um chato.

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