244/2025 MANAS

Em uma cena bem no início de Manas, Marcílio, o pai de Tielle, em casa, com ela ao seu lado, lhe dá uma balinha num feito de carinho, bem fofo.

Tielle fica muito surpresa e mais feliz ainda, não acreditando que ganhou uma bala. Mais tarde ela abre o papel, chupa a bala sozinha, como se fosse o maior presente que ganhou da vida, do maravilhoso do seu pai. 

E possivelmente a bala tenha sido mesmo o maior presente da vida de Tielle, que vive na ilha de Marajó, em uma comunidade paupérrima, em uma casa sobre as águas com seu pai, sua mãe grávida e mais um monte de irmãos.

Aos poucos a gente vai descobrindo que o monstro que é o pai vai criando as filhas para abusar delas quando atingem certa idade e assim que isso ocorre elas fogem e ele parte para a próxima, como um roteiro de filme de horror (da vida real) retratado aqui neste drama que beira mesmo o horror, já que o roteiro da Marianna Bernnand é daqueles de desgraça anunciada.

A gente sabe que vai dar merda, espera que Tielle, de alguma forma se salve do pai sem cair nas garras do próximo predador, que é o que não falta naqueles lados.

Tudo sob o olhar reprovador da mãe, que se bobear é até a irmã de Tielle. O que não sabemos é se a reprovação é para o pai que vai levar a filha “para a floresta” ou se a reprovação é para a própria Tielle que “tirou” o marido da mãe, que grávida de novo, não deita mais com ele.

Faz algum tempo já que assisti Manas e não tinha resenhado mas nos últimos dias eu escrevi sobre 2 filmes e percebi que este Manas poderia muito bem ser o filho de um casamento bizarro entre O Último Azul e o britânico Unforgivable.

Manas se passa em um cenário parecido com o do filme do Grabriel Mascaro, aquele emaranhado de “ruas e avenidas” criadas por rios e igarapés, onde as pessoas pisam mais nas águas do que na terra e tem as cabeças nas nuvens exatamente, pelo que vemos em ambos os filmes, por não terem certezas ou esperanças, que acabam encontrando uma ou outra nas águas.

O problema de Tielle, o horror que a cerca, os homens predatórios que não tem vergonha, moral ou qualquer tipo de humanidade, se assemelham ao tio que abusa sexualmente do sobrinho no filme inglês só que diferente do filme de lá, no nosso Brasilzãodemeudeus o predador só é levado à justiça quando alguém decide resolver o problema com as próprias mãos, da forma que der, já que o “normal” é o pior possível, o “normal” é olhar para o lado, ignorar o que está acontecendo sob seu nariz.

Marianna Brennand criou uma personagem Aretha, a policial vivida por Dira Paes, como a voz da razão, a pessoa que enxerga a realidade, alguém que sabe seu papel, sabe onde está e sabe do “normal” entre aspas.

A gente fica torcendo para a Aretha aparecer e dar cabo no horror que assistimos mas ela não é uma super heroína.

Manas é a vida real, é a história horrorosa que a gente lê nos jornais, assiste na tv e não se conforma, como muito do que a gente vê nos dias de hoje.

Manas é um filme importante, um retrato triste da realidade, uma história infeliz que ninguém gosta de ver mas por mais que a gente tape os olhos, nossos dedos não farão essa realidade desaparecer.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

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