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252/2025 KONTINENTAL ’25

O romeno Radu Jude é um dos meus diretores favoritos dos últimos tempos.

Seus filmes Não Espere Muito do Fim do Mundo e Má Sorte No Sexo Ou Pornô Acidental são 2 dos meus filmes preferidos desta década.

Seu humor bem ácido, seu cinismo, seu drama, são marcas registradas de um cineasta que não tem medo de criticar, de jogar na cara ou de se auto criticar, o que diz muito sobre ele próprio e não só sobre seu cinema.

Este Kontinental ’25 é claramente inspirado no Europe ’51 do Roberto Rossellini onde uma milionária vivida por Ingrid Bergman entrava em uma espiral de dilemas morais após uma tragédia pessoal.

Aqui a oficial de justiça Orsolya, vivida pela ótima Eszter Tompa, também entra em uma espiral estarrecedora moral depois de presenciar a morte de um homem que ela acabou de despejá-lo, por morar ilegalmente no porão de um prédio que foi vendido e estava prestes a ser demolido.

Não falei do humor trágico de Jude que aqui está presente na morte do homem, que se enforca com um pedaço de arame em um aquecedor de chão enquanto a oficial de justiça e os policiais vão tomar um café esperando que ele arrume suas coisas para sair daquele lugar.

Kontinental ’25 começa com a câmera de Jude acompanhando esse homem pelas ruas, recolhendo restos de comida, restos de plásticos e papeis que possam ser vendidos, ele pedindo dinheiro, pedindo comida e o mais bizarro, que acho que explica muito do filme e da nossa condição social atual, o homem passeia por um parque de dinossauros bem tosco procurando algo nos lixos.

Eu achei que fosse um delírio filosófico do diretor, mas o que deveria nos assustar, os dinossauros, são reduzidos a brinquedos estúpidos enquanto o homem que nnao tem o que comer nem onde morar acaba sendo o medo real da sociedade (capitalista). O homem invisível, que só é enxergado quando incomoda, quando seu cheiro está forte ou quando morre na nossa frente.

Daí a culpa vem.

E a oficial de justiça Orsolya passa o resto do filme tentando resolver a culpa que lhe permeia pela morte que ela presenciou. Juridicamente ela não é culpada. Mas moralmente ela não consegue superar o ocorrido e vemos conversas dela com personagens mais diversos sobre nada, sobre filosofia, sobre a vida, sobre o Zen e todas essas conversas, que poderiam ter sido escritas por um Tarantino mais culto, o que pode ser uma definição fidedigna para Radu Jude, todo esse papo, todos os diálogos que deveriam servir para Orsolya conseguir a voltar a respirar, vão alimentando seus pensamentos, suas conclusões e também suas paranóias.

Ela deixou de viajar para a Grécia com marido e filhos porque não consegue colocar a cabeça no travesseiro. Não se conforma que ela tem dinheiro para ir pra Grécia com a família enquanto um ex atleta olímpico se suicida por ter que sair do buraco que dorme às vésperas de um inverno que promete ser avassalador.

Orsolya vai descobrindo que não adianta ela doar dinheiro para ONG’s, ajudar programas sociais mensais se ela continua vendo no seu dia a dia que as coisas não melhoram.

Não adianta seu ex-aluno tentar convencê-la que o zen diz que a filosofia da vida é a própria vida, ou que um padre tenha com ela um diálogo quase surreal sobre morte, nada adianta se enquanto ela estea ali provavelmente outra pessoa em situação de vulnerabilidade pode ter morrido por perto.

Um dos pontos altos do filme é quando alguém diz que queria ser como o velhinho do Dias Perfeitos do Win Wenders, o limpador de banheiros de Tóquio que é feliz ouvindo Led Zeppelin e Nick Cave, mesmo tendo lidado com a pior sujeira produzida pelo ser humano durante o dia.

Radu Jude mais uma vez nos joga na cara a realidade da vida, aqui menos engraçado que o normal. Mas não menos divertido, já que vemos uma mulher que faz parte do sistema falho sofrer por suas ações. E poucas ccoisas são melhores do que vermos esses porcos sofrerem por suas ações.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

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