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021/2026 A VOZ DE HIND RAJAB

Em 2024, comecei a resenha do filme As 4 Filhas de Olfa assim: “As 4 Filhas de Olfa é uma bomba atômica que cai nas nossas cabeças deixando nada como era antes.”

Dia 21 de janeiro de 2025 eu começo este texto sobre A Voz de Hind Rajab, o novo filme da diretora Kaouther Ben Hania, a mesma do filmes de 2024, com as mesmas exatas palavras.

A Voz de Hind Rajab é uma bomba atômica que cai nas nossas cabeças deixando nada como era antes.

Lá em 2024 a diretora Kaouther lançou aquela pérola de docu-drama com a intenção clara de foder com os nossos cérebros e corações com a história da mãe, Olfa, que descobre que duas de suas filhas se juntaram ao Isis e se tornaram, como eram conhecidas, noivas do Isis.

Pior pesadelo possível.

O filme tinha influências óbvias no clássico dos clássicos The Act Of Killing de 2013 onde acontecimentos reais, bárbaros, horrorosos, são re-encenados com propósitos dramáticos.

Daí o docu-drama.

Tá legal, conseguiu acabar com a vida de seu público, de dilacerar nossos corações.

Parece que a diretora tunisiana gostou bem da brincadeira e segundo ela própria, parou com o projeto de seu próximo filme, um projeto de 10 anos que ela tentava levar para as telas, quando ficou sabendo da história de Hind Rajab, uma menina de 6 anos de idade que fica por 70 minutos presa dentro de um carro sob o fogo cruzado em Gaza, em meio a toda sua família morta e ensanguentada dentro do carro.

Ela fica pedindo ajuda desesperadamente por um celular em uma ligação que vai parar na organização Voluntários do Crescente Vermelho, que ajuda como pode (e como não pode) pessoas em situações extremas como a da pequena Hindi.

Todos os 70 minutos da conversa telefônica foi gravado e posteriormente liberado. E quando a diretora ouviu aquele áudio, ela soube exatamente o que fazer.

A Voz de Hind Rajab é a reencenação de um acontecimento real horroroso, onde o telefonema da menina é usado como linha mestre do roteiro do filme onde vemos o que provavelmente foi o desespero dos voluntários da organização se desesperando para tentarem como podia mandar uma equipe para tirar a menina de dentro daquele carro enquanto ela ouvia, e nós também ouvimos, tiros, bombas, tanques se aproximando, e ela lá escondidinha dentro do carro.

Várias vezes no cinema a gente já assistiu aqueles filmes onde a polícia recebe uma ligação, por exemplo, de uma mulher que está sendo sequestrada pelo próprio companheiro e finge estar pedindo uma pizza para dar dicas de seu paradeiro.

Eu pensei que A Voz de Hind Rajab seria mais um desses filmes.

Para minha sorte, eu estava redondamente enganado.

A Voz de Hind Rajab é (mais) uma obra prima de Kaouther Ben Hania que se eu tivesse pensado que o filme das noivas do Isis seria seu ápice, que bom, errei na mosca.

Lá em 2024 eu escrevi que já era o maior fã da tunisiana (desde sempre) e aqui repito minha adoração pela diretora que se supera neste filme que o crítico mais chato pode ter dito que ela segue a mesma “fórmula” do primeiro mas não.

Aqui a diretora Kaouther nos coloca dentro da sala de atendimento do Crescente Vermelho e nos faz sentir como se a vida da pequena Hindi dependesse não deles mas sim do nosso esforço, da nossa voz e da nossa “atuação” contra os horrores dessa guerra nefasta.

Além da ideia maravilhosa de como transformar a história deste telefonema em um filme, o que me deixou muito impressionado foi ver a direção de elenco, a escolha dos atores incríveis e de como a diretora, ou o roteiro, lidou com o sofrimento de cada um deles enquanto eles tentavam manter Hindi no telefone com eles, já que sua voz era a garantia de que ela continuava viva.

Pra terminar, uma confissão. Eu tenho sérios problemas com filmes e séries com sofrimento infantil, com crianças que somem.

Neste caso em particular eu acho que a ação de fazer este filme, de contar esta história tão “pesada”, é para que nós a confrontemos quase como na realidade, e não apenas para que alguns de nós tivessem ouvido falar ou lido a respeito tempos atrás e foi só mais um incidente horroroso da guerra.

Viva a diretora Kaouther Ben Hania.

(Só não torço para este filme vencer o Oscar por motivos de O Agente Secreto)

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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