043/2026 TURGAUD

Lendo um dos muitos artigos que caíram nas minhas mãos nas últimas semanas, “estudos mostram” que no futuro próximo, isto é, amanhã mesmo, os “títulos” de profissionais de cinema, televisão, audiovisual vão mudar e o mais importante deles, segundo o artigo, era que os roteiristas iriam passar a ser chamados de “criadores de mundos”.

Eu venho estudando há anos na UFSCAR, a Universidade Federal de São Carlos, no Programa de Pós Graduação em Produção de Conteúdo Multiplataforma. Depois de alguns títulos conquistados, termino o meu mestrado profissional este ano. E uma das coisas que mais venho estudando e pesquisando e colocando em prática é justamente a criação de mundo, essencial para projetos transmídia e que finalmente chega a grande mídia, aos grandes meios de produção.

Posso garantir de boca cheia que meu amigo cazaque, o diretor Adilkhan Yerzhanov é um dos grandes criadores de mundo do cinema contemporâneo.

Alguns chamam seu cinema de “neo western“, outros chamam de “neo horror“.

Eu prefiro chamar o cinema de Adilkhan Yerzhanov de “horror distópico da vida real”, o que seria uma contradição em termos porque ou é vida real ou é distopia.

Mas o meu, o seu, o nosso diretor preferido vindo do Cazaquistão consegue em seu filmes criar um mundo que é totalmente possível só que com ares desgraçadamente irreais.

E eu pelo menos fico torcendo para que aqueles cenários e paisagens, absurdamente bem fotografados por seu fotógrafo habitual, o mago da luz das estepes Yerkinbek Ptyraliyev, sejam só um delírio distópico mesmo, um delírio febril violento e cruel.

Adilkhan Yerzhanov não “repete” somente seu fotógrafo mas também seu elenco, principalmente Anna Starchenko, que já virou minha diva preferida do outro lado do mundo, sempre como a mulher poderosona que explode quando precisa e aqui neste Turgaud, é Fox, uma assassina de aluguel que chega com seu filho pequeno ao vilarejo comandado pelo gordão desgramento Baylat, um cara que à medida que o filme se passa vai nos mostrando em seu corpo todo o sofrimento por ser cruel, implacável e bunda mole ao mesmo tempo, já que precisa de um monte de turgaud ao seu redor, que são os guardas costas que juram lealdade total e absoluta.

Ao mesmo tempo que chega Fox, chega também Bek (o divo Berik Aitzhanov, outro da família cinemática de Adilkhan Yerzhanov), que é indicado pelo irmão que já trabalha com Baylat.

Bek chega para ser o chefe de segurança, o planejador dos próximos passos do chefão do crime. E ele, Bek, é tão bem caracterizado como esse personagem que se mostra vários degraus acima do resto dos homens e do próprio chefão que no meio das 2 horas de filme eu já queria um poster do filme com uma foto do cara de franja ensebada e luva de dedinhos, que me deixou doido só com a caracterização.

O problema é quando Bek descobre que ele está protegendo o próprio demônio, ou alguém pior ainda que o capiroto, um cara que mata, abusa, tortura, trai, manda e desmanda sem moral, sem razão e sem o menor pudor, o que deixa Bek sem chão por vezes e muito chocado por várias outras.

Mas o que me deixou pirado real foi o reflexo forte de luz que está presente no filme inteiro, em quase 100% das cenas, que está lá pra incomodar mas também para contar uma parte importante da história que é contada só com luz mesmo e que diz muito mais do que a do roteirista que ilustra as cenas com os textos dos personagens, o que não é o caso aqui.

Turgaud é um novo western como alguns falam, é um pós horror, como outros falam e também é a distopia violenta que eu falo, mas tudo isso dirigido com uma precisão e um cuidado de diretor que sabe o que faz e que tem uma equipe afinadíssima, íntima, que provavelmente se diverte fazendo esses filmes.

Detalhes como um drone, um carrinho de controle remoto, uma planta de brinquedo que repete o que ouve, uma bola transparente com luzinha dentro, são dicas de roteiro mas também são formas do diretor mostrar o quanto se diverte em um filme pounk como este.

A distopia de Turgaud vem da fotografia, dos cenários, da direção de arte e das personagens quase subliminares que aparecem e somem como fantasmas que me deixaram por vezes duvidando se eu as tinha visto ou alucinado a partir das imagens alucinantes/alucinatórias do filme.

O mundo que Adilkhan Yerzhanov cria dentro dos filmes eu imagino que se estenda ao dia a dia, a fora dos filmes, se estenda aos dias de produção, da pré e do pós filme.

Inclusive, este Turgaud estreou ontem, dia 11 de fevereiro no Festival de Berlim e Adilkhan Yerzhanov me mandou o filme uns dias atrás para eu ser um dos primeiros a resenharem.

Exclusividade é tudo e como diz o outro, quem tem amigo não morre pagão.

Obrigado.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

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