François Ozon é um dos grandes nomes do cinema francês atual.
É um diretor prolífico, conceituado, amado por crítica e público, filma com quem quer, de Deneuve a Rampling, é o cara que deu alguns novos sopros de vida ao Fassbinder, mas até hoje não fez uma obra prima, um filme que vá entrar para a história do cinema francês.
Eu esperava que sua versão de O Estrangeiro de Albert Camus, um dos livros mais importantes e relevantes da cultura ocidental fosse ser o veículo para ter seu nome no panteão dos gigantes.
Mas não.
Meursault (o ótimo Benjamin Boisin) é um dos mais icônicos personagens da literatura (e também da filosofia). Ele é a “personificação” do existencialismo, do cinismo, da resignação.
Meursault é um pequeno burocrata francês, branco, que vive no Marrocos em 1930, vizinho de um cafetão, tem a mãe internada em um asilo e vive um vida de nada. Seu chefe lhe diz que sua falta de vontade será sua ruína.
Quando ele recebe a notícia da morte da mãe, pede 2 dias de folga, viaja para cuidar do enterro e não derrama uma lágrima, enquanto funcionários e colegas de asilo da morta choram copiosamente.
Antes de voltar para casa ele vai passar o dia na praia, de luto de 1 dia, e reencontra uma antiga conhecida com quem começa a namorar. Mas do seu jeito estranho. Quando ela pergunta a ele se a ama, tempos depois, por exemplo, ele diz que acha que não porque não acredita no amor. E quando ela diz que quer se casar com ele ele concorda sem entusiasmo, dizendo que se for pra ela ficar feliz, ele casa na boa.
Em uma ida à praia com a namorada e o vizinho, Meursault mata um árabe, depois de desentendimentos que não lhe diziam respeito.
Em seu julgamento entendemos Meursault como a personificação da filosofia do Absurdo de Camus. Ele percebe que o universo é indiferente aos desejos humanos. Para ele, não há um “sentido maior”. Se a mãe morre, se ele se casa ou se ele mata alguém, a natureza (o sol, o mar) continua a mesma.
Ele é importante porque desafia a nossa necessidade de encontrar significado em tudo. Ele não joga o jogo da sociedade que se vê obrigada a inventar joguinhos e esquemas criados para justificar mentiras rituais. E por não jogar esse jogo, ele é visto como um monstro, como um homem sem alma e sem coração.
Meursault é condenado menos por matar o árabe e mais por não chorar no enterro da mãe. É o ápice da hipocrisia, que julga mais pela conformidade emocional do que pela objetividade dos fatos.
E o Ozon?
O cara teve uma decisão de mestre: fotografou o filme em preto e branco, tirou qualquer possibilidade de emoção a partir de cores em sua história, contando a vida de Meursault muito mais fria do que eu esperava. Dá até nervoso ver o cara e sua namorada Maria na praia, sob um sol escaldante e depois ver Meursault em outra praia, sob outro sol cegante e não enxergar os raios amarelos refletidos na água do mar da primeira praia e nem na faca do árabe, que cega o francês e o faz matar o árabe.
Eu acho que se este O Estrangeiro fosse um pouco mais burocrático, seria perfeito. Ozon tentou o quanto pôde esconder sua direção mas ele é bom demais pra ser tão sutil assim.
E esse sutileza, essa frieza, esse minimalismo frio existencialista é o que faltou nesse filme.
Lindo mas ainda não é a obra prima que Ozon (ainda) vai entregar.
Ah, segundo toque de mestre do francês diretor: usar Killing An Arab do The Cure nos créditos finais, acabando com a suspensão de realidade do filme.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

