Delírio coletivo. Charlatanismo.
Dois dos adjetviso mais usados desde sempre quando se fala em religião pode muito bem ser usado sobre este filme sobre… uma religião.
Os “shakers” apareceram como uma dissidência dos “quakers” no século XVIII na Inglaterra quando Ann Lee, uma mulher que tem visões desde a infância e que começou a questionar os religiosos ingleses. Com sua família a apoiando, Ann Lee cria essa sociedade onde as pessoas dançam muito para atingir transes em suas rezas e rituais.
Quando não aguentava mais ser perseguida na Inglaterra, Ann Lee com sua família vai pros EUA pensando que no novo mundo poderia começar sua nova religião.
Essa é a historinha do filme que nos foi vendido como o Brutalista do ano, já que foi escrito e produzido pelo diretor do filmaço, Brady Corbet, com a diretora deste e co-roteirista daquele Mona Fastvold.
O Testamento de Ann Lee não é o Brutalista. Mona não é Corbet. E Ann Lee é basicamente uma chata.
O Testamento de Ann Lee é um dos filmes mais lindos do ano mas um dos filmes mais insuportáveis do ano.
As sequências religiosas primeiro quando Ann Lee tem suas visões, em seus delírios infantis e mais tarde também.
As sequências que eles dançam (e daí vem o nome shaker, “quem sacode”, daí o nome) são muito boas neste musical bizarro. O problema é que as danças parecem pertencer a um palco da Broadway e não a um filme de época. Tá legal, essa dicotomia poderia funcionar mas não rolou mesmo. Tudo fica muito desalinhado no filme com um texto antigo, chato, baseado nas escritas religiosas mais radicais e bizarras de todas com o povo dançando jazz no teatro.
Com certeza a ideia desse filme veio do “se funcionou pro Hamilton, pode funcionar aqui”. Teatro, gata, não aqui.
O filme é bizarro mas não o suficiente.
A história é horrorosa, daquele povo radical que resolveu que a salvação estaria ligada ao celibato e a uma sociedade muito rígida e que se dançassem teriam visões de Deus que falaria com eles exatamente por isso.
Não.
Em alguns momentos eu achei que o filme fosse descambar pra comédia por ter situações inacreditavelmente estúpidas como o momento que alguns shakers no novo mundo procuram o terreno para viverem e são liderados pelo caminho por um dedo em riste como se estivesse possuído por algum espírito/fantasma/santo/deus geográfico que lhes indicou o lugar escolhido.
Mas Fabiano, o filme é um lixo total?
Não meu leitor. Temos Amanda Seyfried como Ann Lee.
Ano passado antes de se iniciarem as premiações, Amanda era dada como certa como uma das finalistas a indicação de melhor atriz. Porque ela não só rouba o filme, que foi escrito para seu personagem, mas rouba a luz, a dança, o texto não só deste filme mas paira plena e absoluta acima de atrizes insípidas da temporada como a inacreditável Kate Hudson indicada inclusive ao Oscar por um filme que ninguém assistiu nem assistirá.
Amanda já vinha comendo pelas beiradas nos últimos anos mas sua Ann Lee é uma bênção (oi!) hollywoodiana, algo raríssimo nos dias de hoje.
Por mais incorporada (oi!) que Amanda estivesse do espírito desgraçado de Ann Lee, nem isso salva o filme que tem inclusive muitas questões políticas (como diria Didi Mocó) escamoteadas no roteiro pra dar um ar de importância contemporânea que nnao rolou, mesmo que essas questões tivessem paralelo ao que os shakers acreditam.
Resumindo: roteiro ruim, escolhas ruins pelo filme inteiro, pouca bizarrice, danças maluconas fora de lugar mas tudo muito bem fotografado dentro de cenários lindos por uma direção de arte competente demais.
No final das contas, o delírio coletivo foi com o povo que acreditou que este filme era bom.
NOTA: 🎬🎬

