Se tem uma coisa que eu não suporto na cobertura de reality show é a tentativa de gourmetizar o que é, na essência, um experimento de crueldade humana. Mas o BBB 26 não é apenas um programa de TV; é uma reencenação distópica e perversa de O Mágico de Oz. E, pra minha, pra sua e pra nossa sorte, a “Dorothy” da vez não veio para caminhar em sapatinhos de cristal.
Ela veio para sapatear na cara do mágico truqueiro e implodir o cenário inteiro.
Ana Paula é a nossa Dorothy perdida. Ela caiu nesse furacão chamado confinamento procurando a estrada de tijolos amarelos que prometia o pote de ouro no final. Mas, diferente do clássico de 1939, onde os companheiros de jornada buscavam virtudes, aqui a nossa protagonista se deparou com três super vilões que personificam o vazio da alma humana.
O elenco de “ajudantes” que se revelaram algozes é de doer os dentes:
Jonas é o Espantalho sem cérebro. O cara que se ancora em piadinhas de quinta série, tentando passar por inofensivo, o “bobão da corte” que espera chegar à final por falta de relevância. Foi o primeiro da tríade a cair porque, no fundo, a burrice é a pior das máscaras. Ele não foi esperto o suficiente para enganar todo mundo o tempo todo. A falta de massa cinzenta foi sua derrocada lacrimal.
“Humberto Cowboy” é o Leão Covarde. O homem sem coragem que vive nas sombras, armando pelas costas, articulando o voto alheio enquanto treme de medo de aparecer para o embate. Ele quer o prêmio, mas não quer o desgaste da guerra. É a covardia fantasiada de “estratégia de grupo”. Deu no que deu, saiu de mãos abanando e chorando seu fracasso.
Solange Couto é o Homem de Ferro sem coração. E aqui a brincadeira acaba e o estômago embrulha. Solange é a vilã visceral, a mulher cruel que dispara frases que são verdadeiras bombas atômicas de maldade. Dizer que Ana Paula não tem filho por falta de amor, ou atacar a origem de Samira (ou sobre quem quer que fosse) com uma fala nefasta sobre estupro, é de uma falta de humanidade que me faz querer sair da sala escura da minha sala de estar. É o arquétipo da crueldade em sua plenitude.
Mas o grande trunfo dessa temporada é ver como Ana Paula/Dorothy percebeu, logo de cara, que estava cercada por lobos em pele de cordeiro. Ela não aceitou o roteiro. Ela foi desmascarando um por um, mas guardou o golpe final para o dono da festa.
O Mágico de Oz é o próprio Big Brother. A entidade que tudo vê, que tudo sabe, mas que ninguém conhece a face real. Ana Paula desmascarou o “Mágico” ao bater de frente com as regras nefastas: o figurino imposto, as provas do monstro que beiram a tortura física, o emagrecimento doentio por falta de comida digna. Ela colocou o programa no paredão.
Ao fazer isso, ela jogou na nossa cara — espectadores — a nossa própria insignificância. Nós achamos que comandamos o jogo com nossos votos e hashtags, mas somos apenas “monstrinhos” impassíveis assistindo à barbárie. Somos tão manipuláveis e descartáveis quanto os vilões que escorraçamos toda semana.
O BBB 26 é um hino ao desespero, uma máquina do tempo que nos mostra que a busca pelo pote de ouro pode custar a própria sanidade. Ana Paula provou que, para voltar para casa, às vezes é preciso destruir o Mágico e mostrar que, por trás das câmeras, só existe um vazio imenso e o personagem mais patético de todos.

