Se você, como eu, é apaixonado por cinema que te desafia, que te transporta para um estado onírico e te faz questionar a própria realidade, então prepare-se para ser arrebatado por Ressurreição, a mais nova obra-prima do diretor chinês Bi Gan.
Esqueça as narrativas convencionais. Bi Gan não te conta uma história; ele te convida a habitá-la. E ele faz isso através de uma imersão sensorial profunda, usando os seis sentidos do pensamento budista – visão, audição, olfato, paladar, tato e mente – como portas de entrada para um universo de sonhos, memórias e alegorias apaixonantes sobre os 100 anos de cinema.
Ressurreição não é apenas um filme sobre um homem que retorna à sua cidade natal em busca de respostas. É uma alegoria poderosa sobre a evolução do cinema e seu impacto na psique humana. Bi Gan sugere que, ao longo do último século, a humanidade perdeu sua capacidade de sonhar de forma autêntica. O cinema, inicialmente um espelho dos nossos anseios e medos mais profundos, tornou-se, para ele, uma ferramenta de entretenimento superficial, um simulacro que nos afasta da nossa própria essência espiritual.
A cidade natal do protagonista é uma paisagem de ruínas emocionais, onde as memórias se misturam com a decadência urbana. É um reflexo de um mundo que esqueceu como se conectar com o transcendental. E é nesse cenário que Bi Gan orquestra sua sinfonia sensorial.
Bi Gan é um mestre da imagem. A cinematografia de Ressurreição é de uma beleza estonteante, com longos planos-sequência que nos envolvem em uma coreografia de luzes e sombras. Ele usa a visão não apenas para nos mostrar a realidade, mas para nos fazer questionar o que vemos. As imagens são oníricas, fluidas, como se estivéssemos navegando em um sonho. Ele nos faz ver além das aparências, buscando a essência das coisas.
O som do filme é fundamental. Não há trilha sonora convencional que nos guie emocionalmente. Em vez disso, Bi Gan usa sons ambientes – o barulho da chuva, o sussurro do vento, o ruído da cidade em decadência – para criar uma atmosfera de melancolia e desolação. Os sons nos conectam com o momento presente, com a realidade palpável daquele mundo.
Embora o olfato não possa ser capturado diretamente pelo cinema, Bi Gan o evoca através de imagens e sons. O cheiro da terra molhada após a chuva, o aroma do café em um café solitário, o fedor da decadência urbana – ele nos faz imaginar esses cheiros, nos faz sentir a textura do mundo que ele está criando. O olfato é o sentido da memória afetiva, e Bi Gan o usa para nos conectar com o passado do protagonista e com a história da humanidade.
O paladar também é evocado através de imagens e sons. O gosto de um alimento simples, o sabor de um beijo apaixonado – ele nos faz imaginar esses gostos, nos faz sentir a textura da vida que ele está criando. O paladar é o sentido da experiência sensorial, e Bi Gan o usa para nos conectar com a realidade palpável daquele mundo.
O tato é o sentido da conexão física com o mundo. Bi Gan nos faz sentir a textura das paredes descascadas, o calor de um abraço, o frio da chuva – ele nos faz sentir a realidade palpável daquele mundo. O tato é o sentido da presença física, e Bi Gan o usa para nos conectar com o momento presente.
A mente é o sexto sentido no budismo, o sentido que nos permite processar e interpretar as experiências sensoriais. Bi Gan usa a mente do protagonista – e a nossa – para nos fazer questionar a realidade, para nos fazer buscar o significado além das aparências. Ele nos faz refletir sobre a natureza do sonho, da memória e da própria existência.
Em Ressurreição, Bi Gan nos mostra como o cinema se adapta à passagem do tempo, como ele reflete a evolução da humanidade e como ele pode nos ajudar a nos reconectarmos com a nossa própria essência espiritual. Ele nos faz ver além das aparências, buscando a essência das coisas. Ele nos faz ouvir além dos sons, buscando a melodia da vida. Ele nos faz sentir além das sensações, buscando a textura da existência.
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