170/2026 BLADES OF THE GUARDIANS

Quando se estuda a gramática da ação no cinema, descobre-se rapidamente que existem diretores, existem coreógrafos e existe Yuen Woo-ping. O mestre lendário responsável por esculpir os combates de marcos absolutos como O Tigre e o Dragão, Matrix e Kill Bill retorna com força total em 2026 com Blades of the Guardians, a superprodução live-action adaptada do aclamado manhua Biao Ren. E o que ele entrega aqui não é apenas um filme de artes marciais; é uma verdadeira aula sobre o gênero wuxia ancorada em uma trama de complexidade formidável.

A história nos joga sem paraquedas no caos dos anos finais da dinastia Sui. Acompanhamos Dao Ma (interpretado com enorme carisma físico por Wu Jing), um caçador de recompensas errante e letal que ostenta o incômodo título de “segundo fugitivo mais procurado” da região.

Sua missão que começa como uma perigosa escolta através do implacável deserto de Taklamakan, transforma-se em um barril de pólvora sociopolítico quando ele percebe que sua carga é Zhi Shi Lang, um líder rebelde excêntrico e o homem mais procurado de todo o império.

O que torna o roteiro de Blades of the Guardians tão instigante — e um tremendo desafio de montagem — é a sua intricada teia de subtramas, rancores e lealdades voláteis.

Esqueça a jornada linear e pasteurizada; à medida que a caravana avança pelas paisagens arenosas, o filme engole o espectador em um ecossistema denso de facções em colisão. O governo imperial, clãs assassinos, mercadores obscuros e figuras do passado de Dao Ma (como Di Ting, vivido com intensidade feroz por Nicholas Tse) entram no tabuleiro. É um jogo de xadrez geopolítico disfarçado de filme de época, exigindo uma amarração de roteiro onde cada embate carrega o peso de anos de ressentimento.

E é exatamente no meio desse furacão narrativo que a direção de Yuen Woo-ping reafirma sua especificidade. Como exercício de decupagem e linguagem visual, é um deleite. Ele foge do excesso de cabos e dos voos mágicos e flutuantes que por vezes saturam o wuxia contemporâneo, preferindo devolver o gênero às suas raízes brutais e corpóreas. A coreografia é desenhada para contar história: cada golpe tem peso, as feridas têm consequências reais, e as lutas refletem a urgência da sobrevivência. Há uma inventividade visual absurda, como no breve e explosivo momento em que uma espada arrastada na terra atinge uma poça de óleo, acendendo um fogo que atua como um lança-chamas improvisado.

O elenco de apoio ainda brilha ao preencher os cantos dessa tela expansiva. Chen Lijun, como Ayuya, é uma força da natureza cuja busca por vingança a transforma na presença mais aterrorizante do campo de batalha. E para os fãs do cinema de Hong Kong, a participação especial de Jet Li é um acontecimento. Vê-lo em tela aos 62 anos, entregando um combate corpo a corpo de altíssimo nível, é um presente absoluto que ajuda a estabelecer a gravidade e o risco deste universo.

Para os leitores do Já Viu? que buscam um roteiro épico que não subestima a inteligência do público, aliado a uma direção de ação visceral, Blades of the Guardians é uma ida obrigatória ao cinema. É a prova incontestável de que, quando se trata de orquestrar a violência e transformá-la em arte narrativa, Yuen Woo-ping continua sendo um mestre sem paralelos.

NOTA: 🎬🎬🎬1/2

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