Existem filmes que gritam o sofrimento de seus personagens aos quatro ventos, e existem aqueles que preferem explorar o silêncio sufocante do trauma. Milonga (2023), uma riquíssima coprodução entre Uruguai e Argentina, se encaixa brilhantemente na segunda categoria. Protagonizado pela sempre espetacular atriz chilena Paulina García (vencedora do Urso de Prata por Gloria) e pelo uruguaio César Troncoso, o filme é um estudo de personagem profundo sobre as consequências destrutivas da violência. E o grande motor que torna essa experiência tão visceral na tela é, sem dúvida, a direção impecável de Laura González.
A trama acompanha Rosa, uma mulher de meia-idade que, mesmo seis meses após a morte do marido abusivo, continua presa às regras e ao controle psicológico imposto por ele. Com a relação com o filho em ruínas e vivendo em um isolamento emocional quase impenetrável, Rosa vê uma fagulha de recomeço ao conhecer Juan, um homem encarregado de fazer uma pequena reforma em sua casa e com quem ela acaba redescobrindo a paixão pelo tango. Mas, antes de dar qualquer passo à frente na pista de dança ou na vida, ela precisa encarar o luto, a culpa e os segredos incômodos que a paralisam.
Onde Milonga realmente brilha e se eleva acima dos dramas convencionais é na decupagem e na condução incrivelmente madura de González em seu primeiro longa-metragem. A diretora tem um entendimento absurdo de que a opressão deixa marcas que não precisam de flashbacks mastigados ou expositivos para serem compreendidas pelo público. O peso do passado está na postura de Rosa, na forma como ela transita pelos cômodos da casa e nas pausas do diálogo.
A direção de atores é tão milimétrica que a gente entende anos de abusos em pequenos espasmos de linguagem corporal. Há uma cena brilhante em que o ex-cunhado se aproxima para lhe mostrar uma foto no celular e a abraça. A câmera captura o exato milissegundo em que Rosa retrai o ombro e seu rosto se fecha em um incômodo contido. É uma construção visual discreta, mas que entrega toda a bagagem da personagem sem precisar de uma linha de diálogo. É direção de quem sabe exatamente onde a verdadeira história está acontecendo.
Para amarrar essa atmosfera de contenção, González conta com a fotografia fundamental de Sergio Armstrong (indicado ao Oscar por No), que no início constrói quadros que parecem aprisionar Rosa e, aos poucos, vai permitindo que a luz e o movimento entrem na sua vida. A dança, aqui, não entra como um mero respiro romântico ou clichê latino; ela funciona como uma ferramenta narrativa de retomada do próprio corpo. É através do abraço da milonga que Rosa reaprende a se conectar com outro ser humano sem estar na defensiva.
Para os leitores do Já Viu? que valorizam um cinema que aposta na sutileza, na decupagem inteligente e na força dos olhares, Milonga é um acerto formidável. Laura González nos entrega uma obra que transborda empatia e rigor estético, provando que reconstruir a própria identidade é um processo doloroso, mas que no fim das contas, é uma dança que precisa ser vivida. Uma ida ao cinema absolutamente recomendada.
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