187/2026 UNDERLAND

O cinema documental contemporâneo, especialmente aquele voltado para a natureza e a exploração científica, frequentemente cai em uma armadilha sedutora: o espetáculo visual como muleta narrativa. Underland, dirigido por Rob Petit e produzido por Darren Aronofsky, é o mais novo habitante desse limbo. Baseado no aclamado livro de Robert Macfarlane e conduzido pela narração etérea de Sandra Hüller (indicada ao Oscar por Anatomia de uma Queda), o filme propõe uma jornada filosófica rumo aos mundos subterrâneos e ao conceito de “tempo profundo”. O veredito, no entanto, é agridoce por ser aquilo que mais frustra um cinéfilo: uma obra lindíssima, mas estruturalmente ordinária.

O Lindo: A Fotografia como Feitiço

É inegável que, no aspecto técnico, Underland é um triunfo absoluto. A direção de fotografia de Ruben Woodin Dechamps faz um trabalho hercúleo ao descer por fendas escuras, catacumbas e cavernas intocadas. A decupagem é pensada para nos fazer sentir o peso da terra sobre as nossas cabeças. Há uma poesia inegável nas texturas das raízes, nas rochas milenares e na escuridão opressiva que a câmera captura. Visualmente, Petit consegue colocar o espectador no limite do claustrofóbico e do maravilhoso. Se a experiência fosse avaliada apenas como uma instalação de arte em um museu, a nota seria máxima.

O Ordinário: O Abismo que Não Olha de Volta

O grande problema do documentário reside na sua espinha dorsal: a montagem e o roteiro. Enquanto o livro de Macfarlane é denso, cheio de ricas investigações sobre o que enterramos (desde memórias até lixo nuclear) e o que descobrimos nas profundezas, o filme traduz isso de forma superficial.

Apesar do tom grave da narração de Hüller, a obra se apoia em cacoetes muito batidos do formato documental. A estrutura de acompanhar especialistas em suas descidas carece de um senso de urgência dramática ou de um arco narrativo que vá além do mero encantamento estético. As ideias sobre como o passado enterrado se conecta com o nosso futuro não ganham espaço para respirar na edição, sendo frequentemente substituídas por mais um (belíssimo) plano contemplativo. Fica a sensação de que a direção confiou tanto na beleza das imagens que se esqueceu de construir a teia intertextual que daria peso às reflexões.

Para nós, que analisamos a forma como a história é contada, Underland é o equivalente a uma fotografia de altíssima resolução que você tira com a câmera do celular de uma paisagem fantástica: no momento impressiona, mas falta a alma para torná-la inesquecível.

Para os leitores do Já Viu?, o filme vale a sessão pelo deleite estético e pela curiosidade geográfica. É uma viagem visualmente arrebatadora para o centro da Terra, mas que, ironicamente, não consegue arranhar além da superfície do seu próprio tema.

NOTA: 🎬🎬🎬

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