Há uma tradição muito particular no cinema americano que insiste em nos lembrar de uma verdade incômoda: poucas coisas são tão cinematográficas quanto um casal de párias sociais que se apaixona e decide que as regras do mundo não se aplicam a eles. Em Carolina Caroline, o diretor Adam Carter Rehmeier não apenas abraça essa premissa, como reafirma sua obsessão por um universo habitado exclusivamente por desajustados, entregando uma obra que vibra na frequência da rebeldia e do caos.
O filme se insere em uma linhagem nobre e anárquica de casais em fuga, deixando um rastro de golpes e pequenos crimes por onde passam. É impossível assistir à dinâmica dessa dupla sem que a memória afetiva nos puxe imediatamente para os clássicos absolutos do gênero. A energia visceral e alucinógena de Assassinos por Natureza (Oliver Stone) ecoa na inconsequência dos protagonistas, enquanto o romantismo bizarro e o flerte com o absurdo parecem pedir a bênção de Sailor e Lula, de Coração Selvagem (David Lynch). Ao mesmo tempo, a narrativa bebe da fonte estrutural da rebelião fatalista que eternizou Bonnie e Clyde (Arthur Penn) e do grito de liberdade desesperado de Thelma & Louise (Ridley Scott).
No entanto, o que impede Carolina Caroline de ser apenas um pastiche de suas referências é a consistência da visão de seu autor, especialmente na direção de atores. E aqui chegamos ao grande trunfo da obra: a presença de Kyle Gallner, mas aqui tendo que rebolar para ficar no nível da ótima Samara Weaving.
Quem acompanhou o primeiro longa do diretor — um filme que, diga-se de passagem, envelhece melhor a cada revisão — já sabe o que Gallner é capaz de fazer quando lhe dão espaço para explorar a margem da sociedade. O ator retorna aqui como o protagonista, trazendo consigo aquela mesma energia crua, um misto de vulnerabilidade latente e agressividade defensiva que domina a tela. A parceria entre diretor e ator já provou ser um daqueles raros encontros onde o intérprete entende perfeitamente o tom de estranheza e humanidade que o realizador quer imprimir.
Carolina Caroline é uma viagem alucinante pelo asfalto de um mundo que não tem espaço para quem vive fora da curva. Para quem gosta de um cinema focado em personagens quebrados, imperfeitos, mas que amam e sobrevivem com uma intensidade que a normalidade desconhece, é um prato cheio. Uma prova de que o arquétipo dos amantes em fuga ainda tem muito asfalto para queimar.
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