252/2026 BLACK RABBIT, WHITE RABBIT

Em Black Rabbit, White Rabbit (2025), o diretor iraniano Shahram Mokri consolida sua habilidade de construir labirintos audiovisuais onde o tempo e o espaço se dobram sobre si mesmos. A obra acompanha três destinos que se entrelaçam a partir de eventos aparentemente desconexos, exigindo do espectador uma postura investigativa para desvendar as engrenagens desse drama de mistério.

A arquitetura do roteiro foge das convenções lineares, fragmentando a percepção da causalidade de uma maneira que dialoga profundamente com as lógicas de quebra-cabeças narrativos e construções multiplataforma. Ao invés de entregar a trama de forma expositiva, Mokri utiliza a câmera para coreografar tensões através daquilo que não é dito. O veterano Babak Karimi estrela o longa com uma atuação densa e contida, servindo como o centro gravitacional para os eventos inexplicáveis ao seu redor. Em paralelo, Hasti Mohammai e Kibriyo Dilyobova trazem vulnerabilidade e urgência, preenchendo com sutileza as lacunas deixadas propositalmente pelo texto.

A trama de Black Rabbit, White Rabbit se desenvolve em torno da refilmagem de um clássico do cinema iraniano no Tajiquistão, onde as fronteiras entre realidade, ficção e metalinguagem se dissolvem gradativamente. A narrativa labiríntica acompanha os destinos de três personagens que se cruzam de maneiras bizarras e surreais: um encarregado de adereços de estúdio atormentado pelo medo de que a arma da produção seja verdadeira e cause uma tragédia no set; uma jovem e insistente aspirante a atriz que invade a locação exigindo um teste de elenco; e Sara, uma mulher coberta de ataduras que se recupera de um grave acidente de carro, lida com um marido instável e passa a acreditar que a batida que quase a matou foi, na verdade, uma conspiração.

A decupagem do filme é uma aula de sintaxe cinematográfica. Cada plano é milimetricamente planejado para esconder tanto quanto revela, utilizando o fora de quadro não como uma limitação, mas como um espaço ativo de ameaça e mistério. O design de som trabalha em contraponto direto à imagem, criando uma dissonância que mantém o tom opressivo de forma orgânica. Essa orquestração rigorosa demonstra um domínio absoluto da construção de atmosfera e do ritmo interno das cenas.

O triunfo da obra se consolida na forma como os arcos dos três protagonistas finalmente colidem, revelando que a aparente aleatoriedade dos eventos iniciais possuía uma estrutura milimétrica. É o tipo de filme que não se esgota na primeira visualização, oferecendo um material riquíssimo para dissecar escolhas de direção, estrutura de roteiro e a quebra de paradigmas narrativos clássicos.

NOTA: 🎬🎬🎬1/2

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