281/2026 O OUTRO LADO DAS REDES

É até estranho eu dizer mas, depois de assistir O Outro Lado das Redes, eu fiquei com saudade da velha Hollywood.

Me desculpem, me perdoem, Hollywood sempre foi e hoje em dia mais que nunca é o túmulo do cinema relevante, mas já teve uma fase que a indústria estadunidense de cinema lançava filmões, obras surpreendentes, que superavam o mais que esperado.

O Outro Lado das Redes me deixou de boca aberto, em uma sessão de pré estreia lotada na coletiva de imprensa da Mostra Internacional de São Paulo. Chocado. Abilolado mesmo.

O filme é meio que a continuação do ótimo A Rede Social, o filme que nos contou a história da criação do Facebook e o quanto a plataforma virou o monstro que lá em 2010, 16 anos atrás.

O Outro Lado das Redes joga na nossa cara o Monstro (com M maiúsculo) que virou a plataforma, o horror que virou o nosso mundo, muito graças ao poder de Mark Zuckerberg, um dos “donos do mundo”.

Aqui nós assistimos uma história que acompanhamos tempos atrás, a de Frances Haugen (Mikey Madison, melhor que em Anora, que eu também vi em uma coletiva da Mostra), uma funcionária do Facebook que tenta avisar seus chefes que a empresa estava sendo “predadora”com seus usuários e que se aquilo continuasse, as consequências seriam péssimas e irreversíveis.

Quando seus superiores não deram atenção a seus pedidos de reunião, e não quiseram nem saber do que se tratava, ela se conecta com Jeff Horwitz (o também ótimo Jeremy Allen White), um jornalista do Wall Street Journal que estava começando a fazer uma investigação profunda e pesada sobre a plataforma.

Só que ele não fazia ideia onde estava se metendo. Na verdade nem Frances tinha certeza.

Em paralelo nós assistimos como o Markinho Zuckerberg funciona como um dos homens mais poderosos do mundo. Como ele existe. Manda. Desmanda. Grita. Intimida. Explode. Tudo como se fosse um robô frio, calculista, que não encontra uma gravata certa, da cor certa, para se apresentar ao governos dos EUA para explicar porque o Facebook estava destruindo a democracia.

Um pequeno parêntese para falar de Jeremy Strong, a força supra humana que é o ator que vive Zuckerberg. Imagino o fracasso de filme que seria ter mantido o JEsse Einsenberg no papel do dono de tudo, como ele foi no filme original.

O nerd sem jeito de Eisenberg naquele filme some totalmente na criação do novo personagem, o homem que virou multi bilionário, multi poderoso e multi filho da puta.

O pico do filme é quando vivemos, dentro de uma sala do prédio do Facebook, os acontecimentos do 6 de janeiro, quando Zuckerberg comanda o que era e o que não era publicado na plataforma pelos fascistas que comandavam a história da invasão ao Capitólio.

O que Zuckerberg fez ali foi das atitudes mais nojentas e desprezíveis da história do país do laranjão. E o que vamos enxergar no filme é o quanto o jornalista investigativo, com a ajuda necessária e primorosa da ex funcionária do Facebook, destrói a reputação da plataforma, do seu dono e de tudo de pobre que vem em seu rastro.

A reportagem completa venceu o Pulitzer, é venerada, é aplaudida mas nada adianta quando se escreve sobre um dos homens mais ricos do mundo, que manipula a informação que vai ser contada em sua plataforma que para o público em geral, é mais importante que um dos jornais mais importantes dos EUA.

Tudo no filme mostra o quanto o mundo está manipulado, controlado por pessoas, e suas ideologias, com mais poder que a verdade. O filme fala de fake news, das notícias falssas, da pós verdade, no que não necessariamente é verdade, mas que vira verdade dependendo de como é contada, por quem é contada e quantas vezes é contada. Claro que estamos falando de Facebook Instagram, das tias do Zap.

Voltando ao filme e à Hollywood clássica, O Outro Lado das Redes é filmão. É filme de gente grande, muito bem dirigido e escrito pelo grande Aaron Sorkin, roteirista já do primeiro filme, ou do original, como quer que você prefira chamar.

A fotografia do filme é um primor, exista exatamente para contar a história do filme, assim como a edição do filme, que com certeza esteve prevista já no roteiro, que faz um vai e volta interpretativo como há muito eu não via. Não é revolucionário mas é melhor que tudo que veio dos estudiões hollywoodianos controlados por burocratas nos últimos bons meses.

O único ponto a menos pra mim é a trilha de O Outro Lado das Redes. Não é ruim, mas a trilha original da minha dupla preferida Trent Reznor e Atticus Ross em A Rede Social, é tão revolucionária que por exemplo venceu o Oscar e alçou a dupla ao panteão dos autores mais amados do cinema. Aqui, resolveram criar uma trilha bem classicona, cheia de cordas, quase romântica demais para um thriller nesse nível. Existem momentos de tensão que a trilha nos leva para um lado fofo que me irritou bastante. Entendo o que quiseram fazer mas para mim não funcionou.

Apesar de enxergarmos os milhões e milhões de dólares bem gastos na produçnao, faltou um ponto importante pra mim: o filme conta mais do que mostra. E não me entenda mal, eu amo filmes que contam história e não necessariamente as mostram, mas geralmente esses filmes são baratinhos, sem muito orçamento.

De qualquer maneira, O Outro Lado das Redes é ótimo. Tenso, com um elenco muito bem dirigido, que provavelmente vai ser indicado ao Oscar em 3 categorias, bem escrito e muito bem editado, é o filme a ser assistido nessa época punk de eleições que vivemos.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

Leave a Reply