293/2026 OASIS: DON’T LOOK BACK IN ANGER

Mais do que o título de uma das canções mais definitivas do rock contemporâneo, Oasis: Don’t Look Back in Anger (2026) transforma o clássico da banda em um manifesto de redenção. Dirigido pela experiente dupla Will Lovelace e Dylan Southern (Shut Up and Play the Hits) com roteiro de Steven Knight (Peaky Blinders), o longa registra um dos acontecimentos mais improváveis e catárticos da história recente da música: a volta aos palcos de Liam e Noel Gallagher após 16 anos de rancor, disputas públicas e guitarras quebradas nos bastidores.

(Lembremos que o título Don’t Look Back In Anger é uma iste com a música do David Bowie Look Back In Anger.)

A grande força do filme reside na escolha de não transformar o documentário em uma autópsia sensacionalista da separação traumática de 2009 no festival parisiense Rock en Seine. Em vez de remoer rusgas de tribunal e trocas de farpas virtuais, a direção foca na química reconquistada e na grandiosidade da turnê mundial Oasis Live ’25.

A histórica primeira entrevista conjunta concedida pelos irmãos em mais de duas décadas é o ponto alto emocional do projeto. Sentados lado a lado, Liam e Noel revelam uma dinâmica desarmada e surpreendentemente afetuosa, funcionando quase como uma dupla cômica nata de Manchester — cheios de tiradas ácidas, deboche autodepreciativo e um respeito mútuo redescoberto. Ver a postura arrogante do passado dar lugar à constatação lúcida de que o que construíram juntos é maior do que qualquer vaidade pessoal confere ao longa uma inesperada camada de vulnerabilidade.

Em cena, a grandiosidade é traduzida em números e imagens impactantes: estádios lotados, marés humanas de duas e até três gerações cantando cada refrão a plenos pulmões e uma energia de palco que dissipa qualquer receio de que o retorno fosse apenas um caça-níqueis protocolar.

Ao mesmo tempo em que acompanha a turnê atual, o documentário faz um resgate primoroso da relevância seminal do Oasis nos anos 1990. Se o Britpop teve no Blur a intelectualidade satírica e no Pulp a crônica social mordaz da classe média, o Oasis representou o coração pulsante da classe trabalhadora britânica na esteira da era “Cool Britannia”.

O documentário revisita a ascensão meteórica a partir dos conjuntos habitacionais de Manchester, impulsionada pelo estrondo de Definitely Maybe (1994) e pela consagração planetária de (What’s the Story) Morning Glory? (1995). Noel compunha melodias simples com ambição beatle-esca e refrões monumentais; Liam entregava essas linhas com uma postura desafiadora e uma voz rasgada que transformava frustração periférica em celebração triunfal.

O filme acerta em cheio ao lembrar que o fenômeno de Knebworth em 1996 — onde 2,5% de toda a população britânica tentou comprar ingressos — não foi apenas o ápice de um movimento musical, mas o momento em que cinco rapazes desbocados do norte da Inglaterra deram voz a um país inteiro que precisava de esperança e escapismo.

Oasis: Don’t Look Back in Anger transcende o formato convencional de filmes de turnê. O filme consegue capturar a alegria quase ingênua de dois irmãos que aprenderam a abaixar as armas e deixar a música brilhar. É uma obra essencial para fãs antigos, arrebatadora para novas gerações e um testamento definitivo de que, quando as melodias certas encontram as vozes certas, o rock de arena ainda é capaz de operar pequenos milagres coletivos.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

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