Faz 2 dias que asssiti este documentário, Boorman and the Devil, e desde então meu cérebro fica me mandando sinais de que este seja o melhor documentário do ano e possivelmente um dos melhores documentários que já assisti na vida.
(A repetição da palavra “documentário” é proposital porque dias atrás, em um grupo de viciados em cinema, eu tive que ler que uma pessoa não gosta de documentários indicados ao Oscar de melhor filme internacional porque essa pessoa espera filmes com história nessa categoria. Tadinha da pessoa.)
Voltando ao documentário.
Boorman and the Devil é um documentário sobre o fracasso estrondoso que foi a sequência de O Exorcista, O Exorcista 2: O Herege, lançado em 1977, 4 anos depois do original Exorcista, o sucesso retumbante do horror que me deixa com medo até hoje.
Dirigido por John Boorman, O Exorcista 2 é considerado até hoje um dos piores filmes já feitos. E assistindo o documentário a gente descobre o que aconteceu para que um grande projeto de um grande estúdio de Hollywood, puxado por um dos maiores sucessos da história, desse tão errado.
O grande trunfo deste documentário é ser conduzido por uma entrevista ótima com o diretor John Boorman, um dos grandes diretores ingleses de cinema, um cara que foi contratado a peso de ouro para fazer um filme de horror, uma sequência, mas que ele sempre achou, e isso eu descobri aqui, que ele enxergava O Herege não como uma sequência, mas sim como um filme que transitava no mesmo universo do Exorcista original.
Ideia ótima, mas eu acho que ele não deixou isso tão claro para a Warner, nem para ninguém envolvido no filme e nessa lista de ninguéns eu incluo a Linda Blair, a atriz que volta a fazer o papel da agora crescida Regan, a menina que vomita verde e vira a cabeça 360 graus. E nem avisou Richard Burton, um dos atores mais amados e respeitados de Hollywood que faz o padre desta versão.
Com todo o dinheiro possível, John Boorman foi convencido pelos executivos a filmar tudo em estúdio em Los Angeles, onde construíram cidades africanas, os cenários do filme original, inclusive a rua onde ficava a casa de Regan e mais um monte de locações pelo mundo, tudo pra ter o controle das filmagens que, à medida que as semanas iam passando, iam atrasando desesperadamente.
Mas a questão principal era (e é): como um roteiro tão bizarro, esdrúxulo e ruim foi aprovado por executivos, pelo diretor conhecido por seu bom gosto e por todo mundo que liberou dinheiro para que o filme fosse feito?
Depois de ver este documentário eu revi O Exorcista 2 e quase chorei de rir com o absurdo que é o filme. Eu juro que não me lembrava de nada, devo ter apagado totalmente o filme da minha memória, pela vergonha alheia própria.
No documentário, além de Boorman, vemos boa parte do elenco e da equipe de produçnao do filme falar, contar suas histórias e lembranças da produção. É muito legal ver tanta gente boa dizer que confiava cegamente na visão do diretor Boorman, um cara no auge da carreira, com quem todo mundo queria trabalhar.
E é muito interessante ver todo esse povo dizendo que quando o filme foi lançado, já foi detonado logo de cara e a maioria dessas pessoas nem foi ao cinema assistir. Só não cheguei à conclusão se por vergonha ou raiva.
Mas o ponto mais importante de Boorman and the Devil é que quanto melhor a história contada, melhor o documentário. Óbvio. Mas não só, porque tem muito documentário mal feito que é um desperdício da história retratada.
Aqui a gente vê como funciona primeiro o processo criativo de um diretor, depois como as engrenagens de Hollywood funcionam, para que esse processo seja levado adiante e seja posto em prática e finalmente como lidar com um filme que era a promessa do ano, um dos filmes mais caros já feitos até então, que não funciona, não assusta, provoca risos, o que não é nada bom para um horror de possessão demoníaca.
Assistir Boorman fazer um mea culpa de leve, dizer que quase abandonou a carreira por causa desse filme, dizeer que hoje, do alto de seus mais de 80 e tantos anos de idade voltaria a dirigir se o chamassem, não tem preço.
Boorman é sim dos maiores.
Agora, o mais chocante de tudo para mim foi descobrir que à época, existia uma forma bem da filhadaputa que Hollywood usava para levantar dinheiro para seus filmes e que por causa do fracasso de Exorcista 2, essa prática foi proibida por lei.
Pelo menos pra alguma coisa o filme serviu.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬🎬

