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297/2026 MÁRAMA

Escolhido como o representante oficial da Nova Zelândia ao Oscar 2027 na categoria de Melhor Filme Internacional, Mārama é uma estreia impressionante do diretor e roteirista Taratoa Stappard. Em enxutos e tensos 89 minutos, o longa apropria-se das convenções clássicas do terror gótico vitoriano — mansões isoladas nas terras pantanosas inglesas, preceptora órfã, segredos de família e aparições no espelho — para virar o gênero do avesso e entregar uma história visceral de ancestralidade e vingança anticolonial.

Ambientada em 1859, a trama acompanha Mary Stevens, cujo nome de batismo indígena é Mārama (interpretada com intensidade magnética por Ariāna Osborne). Após receber uma carta misteriosa prometendo respostas sobre o paradeiro de seus pais, a jovem viaja da Nova Zelândia até a gélida costa de Whitby, em Yorkshire, onde passa a trabalhar como governanta na propriedade do aristocrata britânico Nathanial Cole (Toby Stephens), cuidando da pequena Anne (Evelyn Towersey).

O choque cultural e espiritual se instala quando Mary descobre, no meio dos jardins ingleses da mansão, uma wharenui — casa comunal sagrada do povo Māori — saqueada e reconstruída ali como peça de exibição exótica. A partir desse ponto, o sobrenatural deixa de ser uma ameaça externa e assume a forma de whakapapa (genealogia e conexão espiritual): as visões que assombram a protagonista não são monstros tentando destruí-la, mas o chamado de sua mãe, Hinemoana, de sua avó, Arorangi, e de sua irmã gêmea desaparecida, exigindo que sua linhagem e seus restos sagrados sejam resgatados daquele solo estrangeiro.

Se na primeira metade Stappard constrói um suspense psicológico lento e sufocante, amparado pela fotografia invernal de Gin Loane e pela trilha sonora perturbadora de Karl Sölve Steven e Rob Thorne (que incorpora instrumentos tradicionais Māori, os taonga pūoro), o terceiro ato mergulha no horror explícito sem pedir licença.

A violência de Mārama é crua, sangrenta e carregada de significado histórico.

O filme expõe a prática real e macabra de colonizadores europeus que saqueavam artefatos e colecionavam cabeças preservadas (mokomokai) como troféus de salão, revelando que a verdadeira monstruosidade habita a “civilizada” elite vitoriana.

Antes mesmo do banho de sangue final, a violência simbólica atinge o ápice em um jantar aristocrático no qual um convidado branco tatuado (Errol Shand) faz uma paródia racista de cânticos indígenas; a resposta de Mary, executando um haka feroz diante de ingleses que aplaudem achando se tratar de mero entretenimento, é uma das cenas mais nervosas do ano.

Quando a verdade sobre os assassinatos e abusos cometidos por Nathanial Cole vem à tona, o filme abraça o slasher de vingança com cortes de navalha, golpes de arpão baleeiro, decapitação e fogo purificador.

O duelo central entre Ariāna Osborne e Toby Stephens sustenta toda a escalada dramática. Stephens compõe um vilão assustadoramente plausível — o colonizador paternalista que fala te reo Māori e afirma “admirar” a cultura indígena enquanto a subjuga e destrói. Osborne, por sua vez, transita da contenção forçada de uma criada no século XIX para a fúria guerreira de quem carrega gerações de mulheres nas costas.

Ao selecionar Mārama para a corrida pelo Oscar 2027, a Nova Zelândia faz uma escolha corajosa que foge dos dramas convencionais de festival. O filme prova que o terror gótico, quando enraizado em identidade cultural e memória histórica, consegue ser ao mesmo tempo um exercício de gênero brutal e uma obra de primeira grandeza política e cinematográfica.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

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