O Intruso é daqueles filmes tão mas tão legais que deve virar um “clássico de sessão da tarde”, filme que conforta o coração.
A comédia escocesa é um estudo de personagem profundo e comovente.
O Intruso é Daniel (o ótimo Domhnall Gleeson) um burocrata que mora “no continente” e precisa ir até a ilha de Ark despejar os irmãos Isla e Sandy, que vivem sozinhos na ilha depois que seus pais “sumiram” e o resto da população foi pro continente.
O filme começa com a lenda dos 2 passarinhos que protegem a ilha de predadores, sim, Isla e Sandy, e que se tudo der certo eles vão poder contar suas histórias para quem merecer ouvir.
A chegada de Daniel não só desestrutura o dia a dia dos irmãos maluquinhos, que vivem como se fossem os 2 pássaros protetores e que precisam fazer o que estão preparados a fazer para preservar não só sua vida mas também a ilha de Ark.
Daniel também desestrutura, ou melhor, acaba de uma forma estruturando, ou dando vida até aos corações de ambos os irmãos que de suas formas tão específicas, se apaixonam pelo ruivo desajeitado que está lá para mandá-los embora de seu lar.
O filme de estreia do diretor e roteirista Louis Paxton tem os 2 pés encravados em sua ancestralidade escocesa e como ele mesmo diz, na sua herança orcadiana, que é uma mistura de herança escocesa e germânica com curtura, língua e ancestralidade única.
Tanto que ele coloca uma criatura mágica no filme, um Finman, um metamorfo feiticeiro do mar, meio que um sereio do mal, como todo tipo de sereio, que fica (a)tentando principalmente Isla a ir pro mar com ele, como ele provavelmente fez com seu pai.
Mas o que interessa na história é o quanto o homem do continente logo percebe que seu discurso de que os irmãos precisam ir pra “terra” para terem outras amizades, terem coisas pra fazer, terem uma vida além do nada que vivem, logo ele percebe que esse nada da ilha, que essa vida de trapos e histórias de seres fantásticos é possível e se bobear, melhor que a vida que ele tinha no continente, de pessoa solitária, que escreve fan fic de O Senhor dos Anéis, que não tem amigos, que todo seu discurso é incongruente com sua realidade.
Mas o cara tá lá pra expulsar os irmãos e ele não conseguindo e não entrando em contato com sua chefe “vilã”, ela manda outro funcionário que é violentíssimo mas que não esperrava encontrar Isla, a pássara malucona da ilha de Ark.
O diretor Paxton consegue em O Intruso discutir ancestralidade versus modernidade, discutir amor fraternal versus amor “carnal” e principalmente discutir a ingenuidade de onde quer que venha, os irmãos ingênuos que vivem em seu universo particular e a ingenuidade do “homem moderno” em acreditar que sua vida na cidade é superior, mais importante e mais relevante do que sua pseudo “superioridade urbana”.
A conclusão é que essa comédia leve e fofa é na verdade uma aula de cinema inventivo, onde essa historinha ingênua fala mais aos corações e mentes do que sonharia nossa tonta filosofia.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

