Site icon Já Viu?

299/2026 HIGHER CALLING

Transformar uma dor pessoal devastadora em cinema é sempre um terreno delicado: a sinceridade do sentimento garante empatia imediata, mas não sustenta um filme sozinha. É exatamente nesse impasse que esbarra Higher Calling (2026), documentário dirigido por Benjamin Forman e exibido no circuito de festivais como o Raindance Film Festival.

O coração do projeto nasce de uma tragédia íntima. Após a morte repentina de seu irmão mais novo e melhor amigo, Sam, em 2022, Forman decidiu manter uma viagem de motocicleta já planejada pela região indiana do Himalaia — a mais de 5 mil metros de altitude, ao lado de dois amigos —, mas ressignificou o roteiro. Em vez de mero turismo de aventura, a jornada virou uma tentativa de compreender a morte, lidar com a saudade esmagadora e buscar algum tipo de alívio espiritual nas tradições budistas e hindus.

Quando o documentário foca nessa vulnerabilidade, ele encontra seus melhores momentos. A honestidade com que o diretor expõe o vazio deixado pelo irmão caçula e sua urgência quase ingênua por respostas sobre a finitude humana são genuinamente tocantes. É impossível ficar indiferente à angústia de quem pega a estrada tentando dar sentido ao que não tem explicação.

Apesar da nobreza da premissa e da bela fotografia de Sahil Gaikwad nas cordilheiras, Higher Calling sofre de uma falta de pulso narrativo evidente:

A montagem de Nick Rucka não consegue imprimir cadência à viagem, deixando o filme vagar em uma sucessão repetitiva de tomadas de estrada e reflexões soltas (também repetidas, ditas com outras palavras) que fazem a projeção parecer muito mais longa do que realmente é.

Ao longo do trajeto pelo Himalaia, o grupo enfrenta intempéries severas — chuva pesada, neve, frio extremo e caminhos bloqueados que travam o avanço das motos. A metáfora estava pronta na frente da câmera: a impotência diante da fúria imprevisível da natureza espelhando a dificuldade do próprio diretor em seguir em frente e superar a perda do irmão. Forman, porém, deixa a oportunidade passar em branco, tratando os obstáculos climáticos apenas como contratempos logísticos da viagem, sem costurá-los ao seu bloqueio emocional.

As paradas para conversar com monges budistas e moradores de vilarejos remotos rendem momentos simpáticos e visualmente curiosos, mas param por aí. Falta profundidade nas trocas para que esses diálogos saiam do lugar-comum de um diário de viagem espiritual e promovam uma verdadeira transformação dramática na tela.

Higher Calling vale pela coragem emocional de seu ponto de partida e pelas paisagens imponentes no “teto do mundo”, mas termina como um registro terapêutico pessoal que não atinge todo o seu potencial cinematográfico. É bonito ver a homenagem a Sam e curioso acompanhar os monges pela rota, mas faltou mão firme na direção para transformar os tropeços na neve e na lama na grande reflexão sobre o luto que o filme prometia ser.

NOTA: 🎬🎬🎬

Exit mobile version