Eu lembro quando ouvi Butthole Surfers pela primeira vez.
Eu não entendi o que estava ouvindo, logo de cara. Meu cérebro explodiu mas aos poucos fui me dando conta que primeiro eu nunca tinha ouvido nada parecido e segundo, como assim tem uma banda que faz punk psicodélico? E como assim criaram punk psicodélico ou qualquer coisa que o valha?
Isso foi no início dos anos 1990 e eu lá já achava que sabia tudo de música e que nada mais me surpreenderia. Tolo eu.
Lembro que minha amiga holandesa Patricia procurava os discos deles por lá e me mandava pelo correio, o que criava uma ansiedade enorme enquanto as encomendas não chegavam.
Buttholes Surfers é uma porrada na cara, outra no estômago e uma torcida nos peitos.
Seu som é isso tudo e muito mais, como disse é um punk psicodélico malucaço, que incomoda, diverte e te faz dançar. Quer mais?
Este documentário, finalmente realizado, antes tarde do que nunca, conta a história de uma banda amada, de pessoas odiadas, de percurso que vai da total underground ao quase/pseudo sucesso comercial.
O grande trunfo de Butthole Surfers: The Hole Truth and Nothing Butt é que o diretor Tom Stern não é um forasteiro tentando decifrar uma aberração da natureza; ele viveu aquela lama de perto e dirigiu alguns dos vídeos mais insanos da banda.
Essa intimidade histórica faz toda a diferença na tela. Diante da câmera de Stern, Gibby Haynes, Paul Leary, King Coffey e Teresa Nervosa não posam para a posteridade: eles baixam a guarda de um jeito cru e desarmado. O que vemos ali são confissões de sobreviventes de uma época em que o rock independente não tinha nada de seguro, expondo as cicatrizes, a loucura química, o esgotamento físico da vida comunal e as fraturas internas de um grupo que testou todos os limites da convivência humana. Todos.
O material de arquivo desenterrado pelo filme é um espetáculo à parte, resgatando a verdadeira experiência física que era testemunhar a banda nos anos 1980. Entre fitas VHS desgastadas e películas em Super 8 granuladas, o documentário arremessa o espectador dentro de shows que mais pareciam alucinações coletivas ou rituais de possessão. Estão lá o fogo ateado nos pratos da bateria, o estrobo sufocante, as projeções grotescas de filmes de cirurgia e autópsia no fundo do palco, os megafones distorcidos de Gibby e a lendária dançarina nua rodopiando pelo caos. Não é apenas nostalgia barata de bastidor: é o registro histórico de um grupo que transformava o palco em uma zona de perigo real, onde a plateia saía atordoada, fascinada ou literalmente em pânico.
Essa aura de perigo ganha ainda mais peso com a constelação de depoimentos de quem viu a engrenagem funcionar de dentro. Nomes de peso como Dave Grohl e Flea falam dos texanos não com a reverência polida de quem analisa um verbete de enciclopédia, mas com o assombro genuíno de quem teve a cabeça explodida ao vê-los tocar ao vivo pela primeira vez.
Johnny Depp traz à tona causos da convivência íntima e magnética com Gibby no auge do descontrole em Los Angeles, enquanto contemporâneos de trincheira como os membros do Melvins, do Sonic Youth e Al Jourgensen, do Ministry, oferecem relatos hilários e assustadores sobre a vida miserável na estrada, dividindo vans caindo aos pedaços, cachês irrisórios e drogas pesadas.
Há um respeito reverencial entre esses pares porque todos sabem que, perto dos Butthole Surfers, qualquer outra banda punk soava domesticada.
Longe de se contentar com anedotas de loucura, o documentário ganha densidade dramática ao dissecar a estranha virada para os anos 1990, quando esse bando de desajustados do Texas acabou tragado pela máquina das grandes gravadoras e emplacou o improvável hit “Pepper” na MTV. Stern equilibra a anarquia sonora com a dor real de ver o corpo e a mente cobrando a conta de anos de excessos, entregando um filme sujo, comovente, barulhento e absolutamente fiel à lenda de uma das bandas mais radicais e incompreendidas que o rock já pariu.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬1/2

