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302/2026 ROQIA

O cinema de possessão demoníaca foi tão pasteurizado por Hollywood nas últimas décadas que parecia quase impossível ver algo de fato instigante sair desse subgênero. É exatamente aí que o cinema árabe surpreende com Roqia (2025), longa de estreia do diretor Yanis Koussim exibido na Semana da Crítica do Festival de Veneza e escolhido pela Argélia como seu representante oficial ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional.

Longe de apelar para sustos fáceis ou contorcionismos digitais genéricos, o filme ancora o medo na tradição islâmica da roqya (ritual de cura espiritual e expulsão de demônios e energias malignas) e nas cicatrizes não resolvidas da Guerra Civil Argelina, a traumática “Década Negra” dos anos 1990.

O grande mérito da obra reside em seu roteiro ambicioso e muito bem amarrado, que foge da linearidade convencional para construir um díptico em que o horror sobrenatural caminha lado a lado com o trauma histórico.

Em uma das pontas da trama, acompanhamos o velho raqi (o sheik exorcista interpretado com gravidade por Mostefa Djadjam), um curador respeitado que agora enfrenta a decadência implacável da doença de Alzheimer. O conceito é brilhante: conforme a mente do sheik se apaga e suas memórias se desmancham, as barreiras espirituais que ele ergueu a vida inteira começam a ruir. As possessões que eclodem ao seu redor não funcionam apenas como invasões do além, mas como o retorno literal dos fantasmas do extremismo religioso e da violência fratricida que o país tentou varrer para baixo do tapete.

Se a linha do sheik constrói a atmosfera religiosa e mística, é na segunda narrativa que Roqia atinge seu ápice de tensão psicológica.

Em 1992, no auge do conflito civil, Ahmed (Ali Namous) retorna ao seu vilarejo após um misterioso acidente de carro. Ele perdeu totalmente a memória e traz o rosto completamente coberto por ataduras médicas, incapaz de reconhecer a própria esposa e os filhos.

Enquanto a família tenta aceitar o homem convalescente de volta, o filho caçula é tomado por um pavor sufocante. O menino olha para aquela figura mumificada e desenvolve a certeza inabalável de que a criatura silenciosa e agressiva sob as faixas não é o seu verdadeiro pai, mas algo perverso que usurpou o lugar dele.

Essa dinâmica — que dialoga com o suspense de obras como Boa Noite, Mamãe e O Rosto de um Outro — transforma o lar em um pesadelo sufocante. A presença de sussurros noturnos em dialetos estranhos e visitas sinistras na escuridão deixam o espectador dividido entre a paranoia infantil e a iminência de uma invasão demoníaca real.

Roqia é um horror denso, atmosférico e corajoso. Ao amarrar os ritos de exorcismo do sheik à angústia devastadora de uma criança que não reconhece o próprio pai enfaixado, o filme usa o sobrenatural para falar de amnésia coletiva, culpa e da violência que deforma as relações humanas.

NOTA: 🎬🎬🎬🎬

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