Poucos territórios no mundo carregam feridas históricas tão profundas quanto o Iraque, e poucos realizadores souberam filmar essa dor com tanta sensibilidade quanto o diretor Mohamed Al-Daradji.
Em Irkalla: Gilgamesh’s Dream (2025), o cineasta mergulha nas ruas conflagradas de Bagdá para narrar a odisseia de crianças abandonadas à própria sorte, unindo a urgência crua do cinema de guerrilha à mais antiga narrativa mítica da humanidade.
Al-Daradji filma com a urgência de quem conhece cada beco e cada trauma da capital iraquiana. Ao rodar em meio a protestos reais e utilizar locações autênticas, a direção estabelece um realismo nervoso que nunca descamba para a exploração gratuita da miséria. E cria imagens lindas. A foto do poster é das coisas mais lindas do ano.
Grande parte do impacto emocional do longa repousa nas atuações.
O olhar devastador do protagonista, do jovem ator que interpreta o pequeno Chou Chou, ilumina o filme. Seus olhos transmitem uma tristeza ancestral e um cansaço que nenhuma criança deveria conhecer, expressando o luto e a orfandade com uma economia gestual tocante.
A presença calorosa da professora ao mesmo tempo que cruel, vivida por Samar Kazem Jawad, representa o último refúgio de ternura em um ambiente sufocado pela violência. A atriz entrega um trabalho comovente, servindo de esteio moral e afeto em meio ao deserto de perspectivas que cerca aqueles meninos.
É impossível acompanhar a jornada de Chou Chou pelas sarjetas e periferias sem lembrar de Pixote: A Lei do Mais Fraco, o maior filme brasileiro, o clássico seminal de Héctor Babenco que definiu a gramática mundial do cinema sobre a infância marginalizada, que vem até hoje espanhando suas raízes pelo cinema, não só neste filme mas em 2 das maiores produções dos últimos anos, o colombiano Monos e o libanês Cafarnaum.
Irkalla bebe diretamente dessa fonte — na irmandade dos garotos, na violência policial cotidiana e na perda prematura da inocência —, mas a comparação serve sobretudo para reafirmar a genialidade insuperável do longa brasileiro. Pixote é cinematograficamente muito melhor, mais cortante e implacável: enquanto o filme iraquiano por vezes recorre a um tom didático e a concessões poéticas para suavizar a tragédia, a obra-prima de Babenco operava no osso da realidade. A dor impressa na tela por Fernando Ramos da Silva e Marília Pêra dispensava alegorias; era um soco no estômago que dilacerava o espectador sem pedir licença e sem qualquer rede de proteção metafórica.
Se não atinge a contundência documental de Pixote, Irkalla encontra sua própria grandeza ao resgatar a ancestralidade mesopotâmica. Na mitologia suméria, Irkalla é o reino sombrio dos mortos para onde o rei Gilgamesh parte em busca de imortalidade após perder seu companheiro inseparável, Enkidu.
O roteiro transpõe essa epopeia para os dias de hoje com enorme acerto lírico através dos delírios febris e visões de Chou Chou:
- Bagdá como o submundo de Irkalla: nos momentos de desespero e trauma, a cidade pós-guerra transforma-se na terra das sombras dos textos babilônicos, onde a poeira e o concreto destruído espelham o inferno mitológico.
- A repetição da lenda milenar: ao tentar desesperadamente salvar o amigo e resgatar a memória dos que se foram, Chou Chou revive os mesmos passos de Gilgamesh, mostrando como a história humana é um ciclo trágico e contínuo.
- O eco de milênios no presente: nas mesmas margens do Tigre e do Eufrates onde a humanidade escreveu suas primeiras tábuas de argila sobre a dor da perda e a busca pelo sentido da vida, crianças continuam condenadas à mesma travessia dolorosa.
NOTA: 🎬🎬🎬🎬

