312/2026 THE CYCLE

Sabe aquele filme que você assiste torcendo muito para amar, fica a um milímetro de se apaixonar, mas termina com aquela sensação incômoda de que a torcida foi em vão? É exatamente o gosto que fica na boca depois de assistir a The Cycle (2026), longa de horror e suspense dirigido por Jordan Downey (diretor do meu preferidíssimo O Caçador de Cabeças) que chegou ao catálogo do Shudder.

Em uma época em que o cinema de gênero parece refém de uma overdose de folk horror (não que eu esteja reclamando), metáforas arrastadas sobre o luto e assombrações sobrenaturais etéreas, ver alguém apostar com sangue nos olhos em um bom e velho filme de monstro com efeitos práticos é motivo quase imediato para comemoração.

A primeira metade da projeção compra o espectador com facilidade ao misturar a cartilha do suspense policial procedimental com o horror carnal:

A premissa de acompanhar a antropóloga forense Meg Garland analisando uma chacina com marcas animalescas na floresta e dando de cara com o cadáver bizarramente preservado de seu próprio pai desaparecido é excelente para criar tensão imediata.

Os ataques têm impacto, a promessa do ataque físico impressiona,a criatura assusta e há uma sensação palpável de carne rasgada e perigo iminente que faz muita falta nas produções contemporâneas.

O problema começa quando o filme precisa dar substância aos personagens humanos e sustentar a espinha dorsal do suspense.

Deborah Ann Woll (lembrada pelo papel de Jessica em True Blood) segura quase bem as cenas em que precisa agir como cientista diante dos cádaveres, mas entrega um trabalho visivelmente irregular no restante da história. Nas cenas dramáticas mais triviais e momentos de diálogo banal, a atuação patina em caras e bocas que beiram o constrangimento, tornando difícil criar uma empatia duradoura com o trauma da protagonista.

Para piorar, o roteiro mediano assinado pelo diretor ao lado de Kevin Stewart sofre de um vício crônico de dispersão: A trama vai abrindo tantas portas, subtramas policiais e personagens secundários descartáveis que a narrativa perde o foco do que realmente importava.

A atmosfera claustrofóbica do início vai se diluindo conforme a antropóloga se perde em um labirinto burocrático de pistas desnecessárias.

Mas o grande tiro no pé de The Cycle está na mania recente do cinema — algo que já comentei esta semana sobre o filme espanhol Colisão Implacável— de querer reinventar a roda a qualquer custo.

A equipe criativa deve ter pensado: “vamos fazer um terror visceral de monstro, mas vamos criar a nossa própria mitologia do zero”. O problema é que, em vez de respeitar a elegância e a simplicidade brutal da lenda ou subvertê-la com inteligência, os roteiristas inventam uma explicação pseudocientífica mirabolante e bem absurda para o funcionamento da maldição e do ciclo da criatura, esperando que o público engula a novidade com a mais absoluta seriedade. Quando a “grande revelação” vem à tona, a suspensão da descrença quase vai para o espaço pelo excesso de malabarismo narrativo.

(sim, passei o texto inteiro sem dizer qual é o monstro do filme porque pra mim foi uma grande surpresa e espero que para você leitor também será)

NOTA: 🎬🎬🎬1/2

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